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Capítulo 1: Destilados


Encontrei Maria na sarjeta, suja, chorando, praticamente morta. A primeira coisa que ela me disse quando a levantei do chão foi:

_Eu saí, eu saí. Não sou mais puta.

Na hora uma faísca acendeu meus olhos, mas tratei de apagá-la. Provavelmente era só mais uma alucinação.

Maria estava sangrando, principalmente nos joelhos, e o rosto estava vermelho e inchado.

_Ele te bateu de novo, Maria?

_Não importa, não importa. O que importa é que eu saí, eu saí...

Ela sussurrava de tal forma que era difícil ouvi-la mesmo se eu fosse ela.

Havia chovido o dia todo, e agora a rua estava escorregadia. Ela se apoiava nos meus ombros e tentava andar sem cair, os olhos castanhos da mulher que eu mais amei estavam agora com molduras roxas. Um dos sapatos dela estava com o salto quebrado, e por isso ela mancava de forma longa e demorada, tirei os sapatos dos pés calejados e peguei-a no colo. Os cabelos de Maria caíram, mostrando seu rosto pálido, agora com enfeites vermelhos e roxos, e sua boca fina de italiana.

Amei-a ainda mais quando a senti desfalecer no meu colo e entregar-se ao sonolento desmaio.

  •  

Conheço Maria já faz quatro anos e apesar de ela ser (ex) puta, não a conheci no puteiro, até porque não teria R$ 600,00 pra trepar com ela, e só durante uma hora. Ela reclamava dos maus tratos que sofria dos ricaços, mas puta de esquina sofre mais, apanha mais e ganha menos. Ela não era puta de um boquete, ou rapidinha. Puta fina, classe A. Mas eu nunca gostei de tratá-la assim, como se estivesse falando de um modelo de carro.
Uma vez guardei dinheiro pra trepar com ela. Ela negou. Me devolveu o dinheiro.
_Contigo eu faço porque gosto. Guarda isso.
Eu gostei. Podia pagar a conta de telefone do apartamento, e ainda fazer umas compras com o dinheiro economizado. E além disso, me senti amado. Mas esse tipo de coisa não se admite.
Agora, ela está no meu quarto. Dormindo, com aquela cabeleira negra solta, de calcinha e uma blusa minha. Dorme feito um anjo, um anjo que apanhou muito de Deus antes de cair de forma violenta no asfalto.
O fato, é que conheci Maria no restaurante que trabalhei como garçom. Essa manhã, cortei uma laranja em forma de flor para ela e fiz um café bem forte, sem leite, do jeito que ela gosta.
_Bom dia.- Maria levantou-se feito gato e veio espreguiçar-se no meu lado. Tinha o rosto todo roxo e machucado.
_Bom dia.
Tasquei-lhe um beijo na boca fina.
_Fiz um café pra ti. - Me senti tão marido dizendo isso, parecia uma facada no peito.
_Eu vi, e notei qual é a da laranja. Relembrando os velhos tempos,é, seu bandido? - Ela se inclinou na minha direção, os seios super fartos me chamavam. Sempre tive essa tara. Não devo ter sido amamentado quando pequeno.
_Vai que assim você dá pra mim, né? - peguei minha caneca dentro do armário,enchi-a com muito leite e um pingo de café: coisa de criança.
_Quer mesmo comer uma mulher que mais parece que saiu dum ringue de boxe?
Eu ri. Ela comeu a laranja enquanto eu tomava meu leite com café.
"Um martini, por favor. Foi a primeira coisa que eu ouvi saindo dos lábios italianos de Maria,que naquela noite, estavam vermelhos. Ela estava sentada sozinha, numa mesa de um restaurante caríssimo. Eu trouxe o martini pra ela.
"Vocês não têm tequila, têm?. A segunda coisa que ouvi dos lábios italianos dela.
"Temos, senhorita. Deseja uma dose?"
"Jose Cuervo, por favor." Maria tinha paixão pelos destilados.
No fim da noite levei Maria até um apartamento de luxo na melhor parte da cidade. Nós não fodemos. Ela me deu um beijo, no rosto.
_Vou procurar emprego assim que a minha cara tiver mais apresentável. Quero vercomeçar logo. - ela falava como criança animada com um novo brinquedo, mas eu sabia que ela não ia aguentar um mês. Logo logo ia voltar pro puteiro.
_Vai procurar um apartamento pra alugar, também?
Ela me olhou incrédula, sabia perfeitamente que olhar era aquele: o olhar de quando ela apanhava do cafetão, de quando ele lhe roubava sua grana ou de quando a sua mãe ligava pra ela xingando.
_Como é? Tá me mandando embora?
_Nós não vamos morar juntos, Maria. Você não vai aguentar essa vida. Eu não ganho num mês o que você ganha em quatro horas de trabalho. Pára de fingir que mudou, você não é santa, menina.
Ela não esperou que eu terminasse a frase, entrou no meu quarto, saiu completamente vestida e passou correndo por mim. Senti o cheiro do perfume dela. O cheiro dela.
A boca italiana não esboçou sorriso nenhum quando bateu a porta na minha cara.

Dec. 15th, 2008

  • 1:29 PM

A maçã foi devorada.
Antes devorada que podre.

Lux Aeterna

  • Sep. 18th, 2008 at 9:04 PM

Luz Eterna

























apagou-se.

O bandido e a santa - Capítulo 20

  • Jun. 8th, 2008 at 10:15 PM

Acabei de escrever, e portanto, deve ter algum erro de digitação, fico devendo toda a história revisada depois.


Capítulo 20 : Anel de Fogo


_Eta guri, tira a mão daí!

Dona Lúcia bateu com a colher de pau suja de molho nas costas da mão de Romeu. O uruguaio resmungou um “mierda” praticamente inaudível e saiu lambendo a mão. A menina ruiva, que eu descobri que tinha 17 e não 14 anos (ela definitivamente parecia ter 14 anos), Marlene, estava arrumando as mesas pro almoço, e logo logo estaria virando a placa de Fechado, para Aberto. Notei que a menina tnha traços muito bonitos, e que se olhássemos bem, ela até que não era tão criança.

Rita estava no balcão, apoiada, tomando uma cerveja, encarava a porta de vidro do Charque como se houvesse algo de muito importante pra se ver lá.

Rita parecia prever o futuro: Cinco minutos passados, entrou um cabeludo de dreads, com olheiras e cara de cafajeste dentro do bar. Vi a menina Marlene se espichar assim que ele entrou, mas ignorei. Canela veio na minha direção, me deu um abraço, e cumprimentou as meninas com aquele jeito de pegador. Marlene se derreteu toda e ficou vermelha, Rita se limitou a balançar a cabeça.

_Chega aí, Nicanor. Vamos sentar ali.

Canela deu um tchausinho pra'sduas garotas, e me seguiu em direção às cadeiras estofadas e desbotadas do bar. O cheiro da carne de D. Lúcia já havia se alastrado, e começava a me dar fome.

_Vem cá, Canela, duas não te bastam?-soltei um tanto revoltado, sem perceber.

Ele me olhou como quem ouve uma piada, e gargalhou:

_Não sabia que tavas comendo a barwoman.

_Eu não 'tou.

_A rapariga então?

_Não, Nicanor, olha o respeito.

Ele acendeu um cigarro mentolado, tragou e ficou rindo mesmo assim, depois soltou a fumaça enjoada no ar, e fez sinal pra que Marlene viesse atendê-lo. A menina veio, completamente rosada, olhou pro cabeludo e disse:

_Bom dia, o que o senhor vai querer?

_Ah, isso vai depender do que tem no cardápio.

Senti meus nervos esquentando. Marlene começou a dizer as coisas do cardápio do dia, contando nos dedos de unhas bem cuidadas, Canela nem ao menos prestava atenção no que vinha da boca da moça, só prestava atenção nos seios rechonchudos de Marlene.

_Já chega, Lene. Traz a carne da D. Lúcia e uma porção de arroz, se quiser, do requentado. Ele não merece mais que isso.

Marlene ficou branca, começou a estralar os dedos e balançou a cabeça, saiu depressa como se notasse que algo estava errado. Canela me encarava, pasmo, sem acreditar no que eu tinha dito.

_'Tá ficando macho, aqui no Rio Grande, hein?

_Cala a boca, Canela. Não se brinca assim com a menina, se eu não te conhecesse, tudo bem, mas tu já engana duas, mais uma é demais.

Ele se ajeitou na cadeira, colocou o cigarro na boca e tirou da mochila uma sacola de supermercado, a primeira coisa que ele tirou da sacola, foi um saco de pão, que com certeza não tinha pães dentro.

_Toma, tua pequena.

Senti o cano da minha arma, e senti um calafrio. Na mesma hora lembrei de tiro, que me lembra cabeça, que me lembra Carol. Coloquei o saco sobre as minhas pernas. Canela tirou algumas roupas, que ele provavelmente havia pego na minha casa.

_Valeu, Nicanor.

_De nada, irmão. Agora- Ele pigarreou- tu podias me dizer porquê nunca me contasses sobre a tua amante, a amiga d'A Deliciosa?

_Não quero falar delas. E Ofélia deveria ser chama de Assassina, não de Deliciosa. Nunca mais me fala dela. Se for pra falar de uma das tuas, que seja da Diva.

Canela, pela segunda vez no dia me encarou, como se não fosse mais o mesmo Carlos que ele conheceu. E não era mesmo.

_A única coisa que posso te falar da Diva – Canela baixou os olhos em direção ao cinzeiro- é que eu não vejo ela desde o enterro da Carol.






Ring of Fire começou a incendiar o Charque, senti o cheiro e o calor da comida invadindo o ambiente, todas as mesas estavam cheias, a maioria por caminhoneiros ou forasteiros. Canela foi embora, não quis comer o arroz requentado que recomendei. Romeu estava na porta, olhando pro lugar como se esperasse que algum bruto fizesse uma besteira, Marlene andava pra lá e pra cá, exibindo seu rostinho de princesa e arrancando assovios. Rita não estava no lugar, e achei um grande desperdício que ela perdesse a música que ela mais gostava. Eu tinha tomado cervejas demais, e começava a me dar uma vontade incrível de mijar. O banheiro do bar não era lá essas coisas, mas a preguiça de subir as escadas (e o medo de não chegar ao topo) me fez ir ao banheiro fedido (não por falta de limpeza, mas por falta de educação).

A porta estava encostada, mas não trancada, entrei depressa e dei de cara com Rita se olhando no espelho do banheiro, enquanto cantava Ring of Fire com a voz firme.

_Puta merda, desculpa Rita. Achei que não tivesse ninguém...

_Foi nada não, relaxa. - Rita virou-se pra mim, apoiou-se na pia com as mãos e eu vi sua blusa vermelha subir um pouco, até que pudesse ver um pedaço da sua barriga clara de gaúcha. Não me olhem com essas caras, definitivamente eu 'tou em desespero.

Ela sorriu:

_Por pouco não me pega mijando.

Isso não era pra ser sexy. Mas vocês não estavam na cena, eu sim.

Rita veio se aproximando da porta, que eu segurava com certa firmeza (que perdi quando vi aqueles quadris vindo na minha direção), ela parou, bem na minha frente, era quase da minha altura e tinha um ar de autoridade que chegava a me assustar. Senti o hálito de Rita roçar nos meus lábios, os cabelos curtos e louros encostando de leve na minha testa, e algumas partes do seu corpo (como os seios e os quadris) fazendo uma leve pressão, que aumentava conforme ela tentava passar pela porta.

Tremi. Se ela ficar assim, eu não aguento.

Rita me encarou como se quisesse que aquilo passasse de um amasso, ao pé da letra. Ela foi se aproximando até que, finalmente, todo o seu corpo estivesse grudado ao meu, e nossos lábios a ponto de se encostarem. Eu soltei a porta.

Rita a segurou antes que nos acertasse, sorriu:

_Com licença?

Saí do transe, mas mesmo assim estava queimando. Rita, também ruborizada, saiu do banheiro sorrindo pra mim.

Encostei na parede, ainda com a arma engatilhada (e não era a que Canela me trouxe). Olhei pro teto, e lembrei da música de Johnny Cash:

I fell into a burning ring of fire”

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O bandido e a santa: Capítulo 19

  • May. 21st, 2008 at 10:53 PM

Capítulo 19 : O grande véu negro


Ouvi o grito abafado de Carol através da porta do banheiro.

_O QUÊ DIABO VOCÊS FIZERAM, SUAS MALUCAS?-soltei assim que vi a cena que se criara na minha sala de estar.

Ofélia estava em pé ao lado do sofá, imóvel, como quem vê uma cena aterrorizante. E de fato era esse tipo de cena. Maria abaixada, ao lado de Carol que caída ao chão parecia desfalecida e mais frágil que o normal. A mãe de Carol gritava desesperadamente enquanto saía em busca de ajuda para a filha, e eu, meus amigos, eu fiquei puto.

_Contei a verdade pra ela.-Ofélia soltou num soluço.

Maria não parecia mais a mulher forte e destemida que voltou ao Brasil, mas sim a puta acanhada e sem experiência que antes era minha amante.

_Carlos, eu não queria...

_Cala a boca!- peguei Carolina no colo, senti a pele fria da minha esposa e estremeci.

_Saiam da minha casa. SAIAM!

Maria empalideceu, e Ofélia pegou-a pelo braço. A última vez que vi as assassinas do meu filho.





Johnny Cash machuca meus ouvidos e parece que enfia agulhas na minha pele. A música só dava ao bar um clima ainda mais velho oeste, o que já sentia-se normalmente no ar. Aquela cidade não era a minha, que parecia mais uma vila do que realmente uma cidade. Aquele lugar não tem praças ou igrejas grandes e decoradas, mas não era desse tipo de lugar que eu precisava. Eu queria me esconder.

Olhei no relógio grande e amarelado do bar, a barwoman de cabelos curtos me fez um sinal com os olhos verdes, e apontou pra porta. Meu velho conhecido empurrou- a com seu jeito costumeiro e rude, me avistou com dificuldade e veio sentar-se bem na minha frente. Não disse nada, ficou me observando como se procurasse algo de familiar.

_Oi Nicanor.

_Oh, rapaz! Não acredito que é você!

_Fala baixo.

Ele se assustou, fechou a boca escandalosa e esperou que eu dissesse algo mais amigável que “Fala baixo”. Cansou de esperar, finalmente:

_Foi difícil te reconhecer, essa tua barba tá grande demais, né não? E esse cabelo, mais curto que o normal...

_Como anda a Carol?

Ele congelou. Olhou pro bar e chamou a barwoman até a mesa em que estávamos. Pegou um daqueles cigarros mentolados de bicha que sempre fumava, e acendeu. Começou a me irritar a ausência de resposta.

_Barwoman gata, essa. Sabe o nome dela?- Soltou o cabeludo, que agora usava uns dreads enormes.

_Eu perguntei da Carol, Canela.

Ele ficou sério, apoiou o cigarro no cinzeiro e assim que a barwoman se aproximou, pediu um Jack Daniels. A moça de cabelos curtos e grandes ancas se afastou, mas não sem antes me dar um olhar furtivo.

_Tu não bebe whisky, Nicanor. Que viadagem é essa?

_Não é pra mim, amigo. O whisky é teu.

Senti meus orgãos tendo ataques epilépticos múltiplos.

_Que porra é essa, Nicanor?

_Não foi só teu bebê que morreu, camarada.

Baixei os olhos, respirei fundo e fiz sinal pra barwoman:

_Dose dupla, Rita.




Carol morreu. Morreu, morreu, morreu. E a culpa é minha, toda minha, e isso é óbvio. Se antes eu já me sentia culpado, agora não existe nada mais que possa curar a bosta do meu remorso.

Rita se sentou na mesa, no lugar em que Canela havia estado fazia poucos minutos, antes ela esperou o assento esfriar (tinha esses tiques estranhos), e depois veio certificar-se do que havia acontecido.

_O que houve com a tua esposa?

_Morreu.

Rita soltou um gritinho abafado e levou os dedos nos lábios grossos, virou o Jack Daniels que deixei pela metade na mesa, e colocou a mão comprida em cima dos meus dedos tortos.

_Do quê?

_O nenê morreu, ela entrou em depressão. Suicídio.

Eu senti que outro gritinho abafado queria sair das cordas vocais da barwoman, mas ela se controlou e respirou fundo.

_A culpa não é tua...

Encarei os olhos claros cor de lago.

_Claro que é. Se eu ao menos não tivesse sumido, quem sabe não tinha feito essa besteira.

_Tu sabes muito bem que ela não te queria lá. Nem ela, nem a família dela, nem ninguém. Te juraram de morte, pelo amor de Jesus! Te jogaram aqui como jogam filhotes de cachorro.

Calei. Não me interessam juras de morte ou perseguições implacáveis de mulheres loucas. Me interessa que dois anjos morreram, em troca de um diabo.





Tudo começou com muita lama e pauladas. Não me lembro de nada depois da morte de meu filho (era um menino), só me lembro de lama, paulada e alguém me dizendo que ficasse longe de qualquer coisa que lembrasse Carolina, depois, me deu um chute na cara. Quebrei o nariz.

Estava acordado, vendo tudo meio turvo e sentindo a lama gelada tocando meu corpo, ouvia ao longe uma melodia de country, que depois descobri ser o doloroso e poderoso Johnny Cash. Fiquei lá, deitado, sem conseguir me mexer por umas duas horas, até que finalmente um vulto de quadris enormes se aproximou assoviando uma música triste.

_Cacete!-ouvi uma voz de mulher com sotaque gaúcho soltar muito alto, depois, pés correram atolando-se na lama, e vários homens se aproximaram, e me levaram pra um lugar quente, com música e cheiro de carne temperada. Depois disso, dormi.

Acordei com uma ardência violenta, e uma mão comprida e com calos colocando algo gelalado em meu nariz, que eu supus ser pano com gelo, mais precisamente uma meia. Ela empurrava com a outra mão forte minha cabeça pra trás, apoiada na cabeceira da cama. Não me deu tempo de soltar um grito ou gemido, já foi fazendo sinal pra que não fizesse barulho e ficou colocando mais gelo no nariz quebrado que agora eu tinha na cara.

_Segure o pano aqui, e fique com a cabeça pra trás.-ordenou a voz forte.

Obedeci-a sem falar nada, e fiquei sentindo meu nariz latejar. Ela soltou o pano e minha cabeça, ouvi passos num chão de madeira e uma torneira ligando, desligando, depois uma música abafada no andar de baixo e senti de novo o cheiro de carne temperada, ouvi os passos da moça e notei que ela estava em pé, ao meu lado.

_Posso olhar pra pessoa que me tirou da lama?

Ouvi uma risada estranha e ela disse firme:

_Se ficar com o pano no nariz e não sujar meus lençóis, sim.

Foi a primeira vez que vi com nitidez o rosto de Rita, de cabelos curtíssimos e pele clara, os olhos eram um lago verde e claríssimo, com um jeito de mulher forte que laçava touro logo na adolescência.

_Então peão, que vocẽ andou fazendo pra apanhar assim?

Foi aí que me lembrei dos outros ferimentos pelo corpo, alguns que Rita já tinha feito curativos e estavam dormentes, provavelmente de algum remédio que ela passara.

_'Tou tão mal assim?

_Aham.

_Teu nome?

Ela sorriu e sentou-se na cama (eu não sabia que ela havia esperado o colchão esfriar pra sentar-se):

_Rita.



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Um bala na cabeça. Foi assim que Carol resolveu que ia terminar a vida.

_Estragou o velório, camarada. - foi o que o sádico Canela me disse com algumas discutíveis lágrimas nos olhos.

Não gosto de imaginar a cabeça delicada de Carol estourando e deixando apenas uma massa encefálica sangrenta e despedaçada pra contar história. Não a minha Carolina.

A outra mulher que andava me ajudando a esquecer a morte de Carol era Rita, que tinha pouco mais de 1 metro de quadril, quadril de parideira. Eu não havia notado isso nos primeiros meses que fiquei no bar/lanchonete, mesmo que ela usasse calças apertadas ou bermudas curtas, eu só notava seu sotaque forte de caipira e seu jeito forte de cantar e tomar cerveja. Nunca vi uma mulher beber tanto como ela, e mesmo assim não ficar bêbada. Em 3 meses de bebedeiras quase diárias, não vi Rita cair e vomitar nem sequer uma noite.

Além de Rita, que era a dona do bar, trabalhavam lá uma senhora de 50 anos que era a cozinheira mais simpática e rosada que já conheci, Dona Lúcia, e era ela quem fazia a carne temperada que tanto eu comecei a apreciar. Andavam por lá também, Marlene, uma menina de seus 14 anos e cabelos ruivos, que ajudava Rita a atender os clientes e que de vez em quando era assediada por algum tarado, e quem cuidava desse tipo de situação era Romeu, rapaz de seus 23 anos, grande moreno e uruguaio, o único homem num estabelecimento de três mulheres, antes da minha chegada, agora, eu também servia de “segurança” e o meu nariz quebrado parecia ser um aviso para os encrenqueiros.

Nos fins de semana era que Marlene ajudava Rita no bar, que se chamava “Charque” coisa que só observei quando me aventurei a sair do ambiente quente com cheiro de carne, na maior parte dos dias da semana, Rita passava sozinha, junto com Dona Lúcia e durante a noite, Romeu passava lá pra dar uma força com os brutos que apareciam por lá. Rita alugava a parte de cima do Charque como uma pensão de beira de estrada, mas ela escolhia com aquele olho clínico se devria dizer se tinha ou não vagas, logo que avistava o candidato. Rita me acolheu lá, como quem acolhe um cão, e em troca eu trabalhei pra ela um bom tempo, ajudando na cozinha e até aprendendo algumas coisas sobre culinária com a senhora mais engraçada que já conheci.

Numa dessas noites tranquilas, sentei na varanda do quarto que Rita me alugou, e fiquei lá, fumando meu cigarro. Rita apareceu sorrateira e sentou do meu lado com uma garrafa de cerveja, encostou a cabeça no meu braço e ficou lá, bebendo a goles largos.

_Vai ficar aqui nesse fim de mundo pra sempre, peão?

Traguei o cigarro e joguei devagar a fumaça no ar, cocei meu queixo barbudo:

_Até pagar minha dívida contigo, Rita.

Ela não respondeu. Tomou mais um gole de cerveja, levantou-se:

_Quer uma cerveja? Vou pegar outra pra mim.

Vi com o canto dos olhos o cabelo claro de Rita reluzir prateado com a luz pálida da lua, aquele cabelo louro quase branco (e natural), vi o colo nu e alvo, e claro, os quadris enormes de dançarina do ventre.

_Claro. Bem gelada.

Rita voltou rebolando e sentou-se na minha frente, colocou a cerveja nos meus pés e ficou observando meu rosto, mais precisamente meu nariz:

_Sabe, não te conheci com o nariz normal, mas duvido que fique melhor do que esse torto que te arranjaram.- ela riu alto e deu uma golada na cerveja, chegou a se afogar e depois de umas três tossidas já estava bebendo de novo.

_Não me lembro mais da minha cara antes da surra. Não me lembro de nada de antes da surra.

_Não lembra mesmo?-senti os olhos claros me indagando como se fosse uma policial num interrogatório.

_Não quero lembrar.

_Essa resposta é mais sincera. Anda, bebe tua gelada.- obedeci a ordem de Rita, que falava suave mas parecia sempre doce e calma, e isso me lembrava Carol.

_Me diz uma coisa, Rita. Tu gostas dessa vida de dona de bar?

_Adoro. E tu, gosta dessa vida de fugitivo?

_Que diabo de fugitivo, mulher? Eu não 'tou fugindo de nada.

Fui grosso. Rita ficou calada, tomou outro gole de cerveja e riu. Mudou de assunto, não gostava de brigas, ainda mais por causas infundadas:

_Teu amigo lá, aquele cabeludo sujo, ele sabe que tu andas aqui. Não é perigoso que aquela tua ex apareça atrás de ti?

Estremeci. Não tinha pensado nessa hipótese, Canela não conhecia Maria, mas de repente me veio à mente que conhecia Ofélia, e isso já era o suficiente.

_Eu pedi que ele guardasse segredo. Eu confio nele. Inclusive, semana que vem ele deve aparecer me dando notícias de tudo.

Minha garganta gelou. Olhei pra Rita e vi o suor escorrer-lhe pela testa, os cabelos louros prateados estavam encharcados, mas não, ela não vai passar a garrafa de cerveja entre os peitos. Isso não é um comercial de cervejas.

_Meu amigo te achou gata, Rita.-falei entre dentes pra ela, ela gargalhou e balançou a cabeça com desdém.

_Moleque demais pra mim, peão.-Rita levantou, espreguiçou-se- Ele não tem nenhum nariz quebrado, que graça tem um homem desses?

Ela me deu uma piscadela zombeteira e saiu pra atender a cambada de marmanjos que estava no andar de baixo.

Eu fiquei lá, sozinho com meu nariz quebrado e meu remorso.

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Andréa humana, Janice pernilonga

  • Apr. 18th, 2008 at 6:14 PM

Andréa era humana. E como quase todo humano, trabalhava, tinha filhos e se cansava demais, dormia de menos, comia frituras nojentas e tinha alguns problemas de pele. Andréa tirava os sapatos quando chegava em casa, já havia virado mantra, tomava um copo d'água, ia pra cozinha fazer o jantar das crianças, cantava músicas populares enquanto cozinhava e quase sempre cortava o dedo ao picar tomates.
Andréa gostava de acariciar seu gato, fazê-lo dormir nos seus joelhos, e de ouví-lo ronronar. Quando seu marido chegava em casa, Andrea gostava de acaricía-lo, de fazê-lo dormir nos seus joelhos e de ouví-lo ronronar.
Na noite de segunda, Andréa fez tudo como sempre fez, estava com olheiras grandes e aspecto cansado, cara de bosta, como diria normalmente. Ela entrou no banheiro, despiu toda a roupa, ligou o chuveiro e provou a temperatura da água. Foi aí que ouviu um pernilongo zunindo alto. Muito alto.
Ela tentou tomar banho, mas aquele barulho a irritava, profundamente.
Andréa, balzaquiana, mãe de uma menina linda e que sabia contar até dez, matou um pernilongo na noite de segunda, e foi tomar seu banho.


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Janice era um pernilongo fêmea, ou uma pernilonga se me permitir ser coloquial. Como toda boa pernilonga, ela saía pelos ares buscando corpos pra que pudesse picar. Janice fez dessa vida monótona de chupar sangue, algo muito mais profundo. Janice cantava, se esgoelava, era a rainha dos pernilongos. Cantava toda noite num grande salão com uma cachoeira que era ligada de tempo em tempo, um salão muito reluzente,branco, e escorregadio. Naquele lugar, Janice sentia sua voz reverberar, e toda a força das suas cordas vocais era colocada naquele momento que ela julgava o mais importante da sua vida. Janice casou-se com um pernilongo viciado em seiva de salgueiro, encomodou-se muito com tratamentos em clínicas para viciados, mas mesmo assim o acompanhava de perto. Janice não tinha filhos, só abortos. Ela era feliz, com sua corda vocal poderosa e suas noites no salão branco reluzente.
Numa noite de segunda, Janice fazia seu solo no clube, aquele do salão reluzente, seu marido havia saído da clínica, já bem recuperado do vício, e estava na platéia, vendo a grande estrela Janice ser aclamada pelos fãs boquiabertos por sua voz poderosa e totalmente inigualável, até que um grande vulto negro aproximou-se e depois o que conseguiram ver e ouvir foi apenas sangue espalhado e a ausência da voz de Janice.
Janice, 15 dias de idade, apaixonada por um viciado, estrela da música pernilonguística, esmagada por uma havaiana no azulejo do salão branco.

Pausa pra conto estranho: Lucimara e Ana

  • Apr. 8th, 2008 at 8:33 PM

Pra Lucimara tudo aquilo brilhava demais. Ela achava que a vida devia ser mais bolhas de detergente e espuma de Omo Multiação.
A Luci (como o marido gostava de chamar) era daquelas mulheres de verdade, que mesmo depois de um dia cansativo, queria sentar no colo do marido, e fingir que eles haviam acabado de se conhecer. Desde nova, Lucimara achava que a vida tinha algo de muito errado, e procurava entender o porque das pessoas fugirem do cheiro do tempero da cozinha quente e aconchegante de casa, procurando um restaurante fedendo a gordura, frio, com comida fria, com gente fria, com "Muito Obrigado e Volte Sempre" frios. Lucimara tinha só 30 anos, e mesmo assim já entendia que tudo que se podia fazer da vida é sentir nos dedos a textura da batata, e escolher os feijões podres pra que não fossem parar na feijoada.


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Pra Ana, tudo aquilo parecia muito inútil. Ela gostava de comida, sim. Mas não queria dizer que ela gostasse de cozinhar, coisa que ela fugia como diabo da cruz. Ana curtia as lanchonetes encardidas, de cafés ruins e pessoas estranhas, e de vez em quando até gostava de um restaurante de comida japonesa, o importante era que ela não tivesse de cozinhar.
Ana fugia das tarefas de casa, desde pequena, e se afogava em livros e quadrinhos, como se fugisse do mundo e da convivência dos outros, ela gostava do cheiro da grama de manhã cedo, quando ela sentava de bunda no chão pra ler um dos livros que pegara na estante do pai, Ana gostava do cheiro de cappuccino fumegante, pelando, daqueles de cafeterias de beira de estrada. Ana viajava sozinha, não tinha muitos amigos, mas era feliz, acima de tudo. Pra Ana, a vida sempre foi linhas tortas e graciosas de um livro divertido e proibido, no qual você tinha de se concentrar pra não perder a página, e acabar pulando algum capítulo.

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Lucimara e Ana morreram no mesmo dia, da mesma doença e foram enterradas no mesmo cemitério, e essas três coisas são as únicas que elas têm em comum.

Pausa pra pseudo poema

  • Apr. 6th, 2008 at 10:48 AM

"Pecar é pecado. Isso é muito claro.
Mas que diabos fazemos quando isso se torna brincadeira?
Cruzo os braços e me faço santa, ou ao menos um tanto normal?
Ter na caixa toráxica um vazio de dar pena e raiva,
Ter enjôos quando olhas pra ti, ter surpresa ao ver um gesto gentil,
Isso tudo é pecado. Pecar é pecado, todos sabemos.
Mas simplesmente me some a arma de escolha,
e me vejo (de novo) pecando,
e pior: é que eu quero pecar."

Capítulo 16 – Atrás da porta (do banheiro)

 

 

Querem saber como eu me tornei um adúltero, eu suponho. Com Ofélia e o marido na Europa, e a pequena Lena dormindo a sono solto, sobraram Maria e eu na mansão, e com todo aquele espaço, mesmo assim fomos parar no mesmo cômodo.

Maria estava radiante, e nos quatro anos em que ficamos sem nos ver, seus traços ficaram mais fortes, ela virou mulher de corpo, e eu sentia que também de alma. Ela sentou-se a mesa, brincando com as unhas compridas na toalha bordada com flores vermelhas.

_Como é que andam as coisas, bandido?

_Não me chama assim, Maria.

Ela riu, mas não daquele jeito filho da puta que sempre fazia.

_Desculpa Carlos. É costume. Mas eu confesso que sinto saudade de quando você me chamava de santa.

Tirei o terno e me sentei junto dela, depois de tanto tempo sem vê-la, era a primeira vez que podíamos conversar feito os ex-amantes que éramos.

_Olha, Maria, tu já foi muita coisa na tua vida. Já foi puta, já foi casada, viúva, rica e mãe. mas nunca santa.

Maria me encarou com os olhos negros profundos e afiados. Tocou meu rosto com a mão comprida:

_Se eu fosse santa de verdade, você não me amaria.

_Eu não te amo.

_Ah, ama sim.

Ficamos nos encarando por algum tempo, os dois assim, sérios, como se esperassem que o outro caísse na armadilha e fizesse um sinal de aprovação.

_Você foi embora. Eu te esqueci, me casei e vou ter um filho. Eu te quero bem, Maria. Mas é só.

Falem sério, eu consigo enganar vocês? Pois entao imaginem se eu conseguiria enganar ela. Maria agarrou meu braço e eu vi seus olhos se encherem de lágrimas.

_Bandido, eu fui embora por nós dois, eu mandei Ofélia te dar esse recado, eu pedi pra que você entendesse...

_Eu já disse pra você não me chamar assim. E você agiu como uma criança mandando recados pela sua amiguinha, que por acaso, é uma bela d'uma sacana. Você não confiou em mim, Maria, eu não tenho que confiar em você.

_Tua mulher, confia em ti?

_Que merda é essa? Não mete a Carol nisso, ela é a mulher mais pura que eu já conheci na minha vida.

_E esse filho, é teu mesmo?

_NÃO METE MEU FILHO NO MEIO, SUA DESGRAÇADA!

Maria ficou impassível, só seus olhos demonstravam espanto, que logo se transformou em tristeza. Eu suava e sentia todos os meus nervos queimando.

_Você vai ser um ótimo pai. Tenho certeza.- ela sorriu, e mesmo assim não passou alegria nenhuma quando fez isso. Se levantou da cadeira e foi até mim.  Senti seus cabelos negros roçando meu rosto.

_Eu te amo, bandido. Sempre amei.

Antes que ela pudesse se virar e me deixar ali, de novo, com mais uma dúvida e cara de tolo, meu corpo reagiu soziinho, puxei Maria pelos braços, sentei-a no meu colo e senti sua boca fina e quente beijar a minha.

Depois vocês já sabem o que aconteceu

 

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Cheguei em casa exatamente as 03:30 da manhã, e levei um susto quando vi Carol sentada no sofá da sala, com seu barrigão e sua camisola azul de babadinhos.

_O que tá fazendo acordada a essa hora, Carol?

_Muito trabalho hoje?

Ela me olhou com cara de sono, e mesmo assim seus olhos azuis pareciam brilhar.

_Bastante. Vamos dormir?

_Nós queríamos tanto te ver...

Ela tocou na barriga, e me deu um beijo terno com gosto de pasta de dente. Beijei-lhe a testa e a barriga e fui direto tomar um banho. Mulheres tem faro pra perfume de outra mulher, e eu tenho faro pro cheiro da minha culpa.

 

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Canela tirou os óculos escuros rayban, e eu vi suas olheiras e seus olhos escuros.

_Eu não gosto muito disso, não. - ouvi o cabeludo dizer.

_Eu me divirto muito.

_Eu também. - disse um companheiro careca que trabalhava com a gente, o Careca.

Estávamos os três sentados num desses barzinhos escrotos. lugar em que a cerveja é quente e as mulheres ao redor são feias. A única mulher visivelmente atraente da cena, pertencia ao cabeludo estressado.

Diva entrava em ação de novo: depois do último cara que ela pegou usando suas armas de sedução, o chefe achou que ela servia pra coisa, e sinceramente, eu e os outros caras do Poleiro adoramos a idéia de ver Diva em outros trajes que não aqueles ternos sóbrios, pelo menos de vez em quando.

O Careca era branco como cera, mas devido aquele sol escaldante, ou aos trajes de Diva, suas bochechas estavam ficando rosadas e sua camisa branca de estampa rosa, suada.

_Aí Canela, vai me desculpar, mas tás bem servido, né não Carlos?

_Eu não digo nada, Careca. Diva é amiga da minha patroa.

Canela gargalhou, tomou um gole de cerveja e tragou seu cigarro mentolado de fresco.

_Tu nem sabes o quanto eu tou bem servido, Carequinha.

Eu entendi a indireta, e canela nem precisava ter me olhado daquele jeito de quem passa uma senha num jogo de cartas.

Pousei os olhos sobre Diva. Ela estava sentada a alguns metros de nós, no mesmo bar chulezento, e a roupa realmente dava motivos pro Careca ficar rosado: Diva estava com um decote apertado, short jeans também apertado e seus cabelos, além de soltos, estavam mais cheios e convidativos, afinal de contas, enfiar os dedos naqueles cachos deve ser um sonho. Diva suava, e isso a encomodava visivelmente, já que ela ficava levantando os cabelos e se abanava com as mãos pequenas e gordinhas. Fechava os olhos e por um momento eu torci pra que derramasse cerveja naquele decote...

_Chegou.- Canela me tirou do  transe.

Um cara alto, cabelos grisalhos e olhos azuis chegou junto a mesa de Diva, que sorriu convidativa. Diva estava seduzindo o coroa fazia duas semanas, que era rico, e por isso o tratamento com ele deveria ser discreto e muito mais elaborado.Diva foi escolhida pra fisgar o homem, e ela era extremamente eficiente quando dizia respeito ao trabalho. O coroa é um tarado veterano, que tinha muita facilidade pra pegar as meninas da região, que por acaso ele costumava engravidar, o que não durava muito, já que elas também costumavam abortar do nada.  O coroa era Roberto Marques Cunha, e ele estava devendo grana alta pro chefe, e com todos esses atributos, Diva era perfeita pra ele.

_Minha vez chegou, rapazes. Vejo vocês no banheiro.- bati no ombro de Nicanor, e me me encaminhei até o balcão, de costas pra mesa de Diva e de Roberto, e pedi mais uma cerveja. Era o tempo suficiente pra ouvir Diva entrar em ação, e caso ele resolvesse não cair na armadilha, resgatá-la. Foi isso que ouvi:

_Tava com saudades, Beto. - Diva disse com voz aveludada, o que me assustava muito.

_Eu também, linda. Quando é que você vai me deixar matar essa saudade, hã?

Diva riu baixinho, agarrou a nuca de Roberto com a mão firme de franco- atiradora e disse baixinho, mas o suficiente pra que eu pudesse ouvir:

_Que tal agora, lá no banheiro?

Não vi os olhos de Roberto, porque tive de me virar pro balcão pra pegar a cerveja, mas se eu fosse ele, meus olhos estariam pegando fogo, assim como minhas calças.

Diva foi primeiro, andando devagar e olhando pra Roberto, como a boa atriz que era, logo depois o coroa se mandou pro banheiro fedorento do lugar. Era um daqueles banheiros pequenos, que fica do lado de fora do estabelecimento, porque o bar era tão chulezento, feito num desses puxadinhos, sem reboco e muito menos tinta, que não tinha espaço pr'um banheiro dentro do local. O banheiro era composto de dois ou três mictórios imundos, e um box verde (quase cinza devido a sujeira), e o vaso sanitário quase sempre estava entupido. Dessa vez não estava, porque quando viemos inspecionar o lugar, a Divina exigiu que um de nós desentupíssemos o chiqueiro, e sobrou pro Canela, obviamente.

 Diva não tinha onde guardar uma arma, por isso devíamos ser rápidos, e principalmente, muito discretos. Dados cinco minutos, todos nós estávamos dentro do banheiro, e eu vi os pés de Diva se mexendo no box verde-cinza do banheiro imundo. Canela fez questão de arrombar a porta e tirar as mãos de Roberto do decote de Diva, que parecia impaciente.

_Saí daí, Diva. Já chega dessa bosta, esses peitos são meus, coroa.

_Porque diabos demoraram tanto?- Diva empurrou Roberto, que parecia ter entendido tudo no momento que Canela arrombou a porta. Um mulherão daqueles dando mole pra sexo em público? Convenhamos, é difícil.

Ela arrumou os cachos, foi até a pia, cuspiu muitas vezes, xingou baixinho e retocou o batom. Careca aproveitou pra dar uma mijada num dos mictórios, Canela estava com a arma apontada pra Roberto, que se encolheu no vaso sanitário, eu tranquei a porta do banheiro e entreguei uma arma pra Diva, que agradeceu ainda com cara de nojo.

_Acaba com isso, amor.- a Divina disse firmemente.

Canela olhou pra mulher de cabelos encaracolados, chamou-a, ela foi até ele, que imediatamente deu-lhe um beijo de tirar qualquer gosto ruim da boca, eu apontei a arma pra Roberto, que estava assistindo ao beijo muito atentamente, e muito interessado pelo jeito com que sua calça crescia. Canela passou a mão no pescoço de Diva e antes que pudesse chegar no decote, ela soltou-o.

_Já chega, Canela. - ela se afastou.

Nicanor virou-se pra Roberto:

_Tá vendo isso, amigo? Só vai ver mesmo. Tu deves saber muito bem, que tu andas devendo um dinheiro, assim, coisa pouca, e é por isso que vais morrer de pau duro, seu velho tarado.

_Calma aí, gaúcho, só dei umas apertadas na tua vagabunda, nada demais...

Canela deu um soco em Roberto, e o impacto foi tanto que fez Careca franzir a testa. O cabeludo sacudiu a mão e colocou a arma no peito de Roberto.

_Vagabunda é a mãe, seu filho da puta.

Canela atirou no coroa, e isso só foi notado porque o sangue começou a escorrer em grande quantidade, manchando o chão do banheiro já muito imundo,e nessa hora eu pensei que a compra de silenciadores foi uma ótima idéia e facilitava muito o trabalho. Diva foi a primeira a sair do banheiro, Canela encostou a porta do box e saímos todos, por o banheiro ser fora do estabelecimento, nos possibilitava uma saída sem suspeitas,e por fim fomos embora com mais um trabalho bem feito.

 

 

Capítulo 17 – Deus Lhe Pague!

 

Helena se sentou no degrau da escada, com um copo grande de achocolatado.

_Bom dia, Lena.

_Bom dia, tio Carlos.

A menina deu um gole na caneca, e logo estava com um bigode de leite e chocolate, grande e engraçado. Ela me olhou, ofereceu a bebida e quando recusei, resmungou algo inaudível. Os cabelinhos pretos da meninas estavam desarrumados, coisa contra qual Maria vivia lutando, tentando adestrar o cabelo rebelde da filha, que mesmo liso, insistia em dar uma enroladinha nas pontas. Eu particularmente sempre achei bonitinho.

_O que  tu queres de presente de aniversário, menina? Falta duas semanas, né?

Ela lambeu o bigode de chocolate:

_Nada não, tio. Mamãe diz que é feio pedir presente.

_Ela não tá aqui agora, tá? 

Helena olhou pros lados, pra se certificar de que a mãe altiva e branca não estava escondida em algum lugar.

_Um cachorrinho.

Não dava pra pedir coisa pior.

_Hmm. um cachorrinho pulguento e fedorento?

_Não, cheiroso e sem pulgas. - ela riu gostoso, e vi seus olhos claros brilharem de divertimento.

_Lena, vem trocar de roupa pra ir no parquinho com o tio Márcio.

_Tô indo!

Vi os cabelinhos curtos balançarem, e no lugar da doce Helena, me veio sua mãe cruel. Maria sentou-se ao meu lado, seu perfume chegou até mim como lava recém saída do vulcão. Ela me olhou de um jeito doce, apesar de sempre ter um jeito ordinário:

_Bom dia, bandido.

_Essa menina é minha, Maria?

Ela freou. Calou, respirou fundo.

_O que te faz pensar isso? Ela não se parece contigo.

_Isso não quer dizer nada. Ela é a sua cara, pode muito bem não ter nada do seu marido.

_Ela tem os  olhos dele.

_Bobagem.

Senti as mãos de Maria tocando minha nuca, ela virou meu rosto e beijou de leve minha boca, como se me consolasse.

_Eu fui embora porque ela era dele. Eu não queria que você sofresse.

_Eu não acredito nisso.

Os olhos negros de Maria deixaram transparecer tristeza, ou ao menos pesar.

_Porque outro motivo eu deixaria o amor da minha vida?

Helena gritou pela mãe, e eu fiquei com o coração na mão enquanto a as pernas alvas iam embora.

 

 

Diva ria em alto e bom som dentro do Poleiro, fazendo a alegria dos marmanjos que sonhavam com aquele sorriso e aqueles cabelos cheios e sedosos. Só era uma pena que ela estivesse de novo com o terninho sóbrio e recatado. Canela entrou na sala e interrompeu a baba de todos antes que chegasse ao chão, sentou ao lado de Diva, deu-lhe um beijo e foi tomando um gole do café forte da Divina.

_Que foi que aconteceu, Canela? O chefe queria o quê contigo?

_Me dar duas boas e uma má notícia, amor. Lembra do Roberto Cunha, aquele velho tarado?

_Claro que sim. O gosto de charuto ainda tá na minha boca. Que tem ele?

_Não morreu.

_Quê?  Caralho! Como é que pode?- ouvi o Careca gritando do outro lado da sala.

_Como assim, Canela?- perguntei.

_É isso mesmo, gente. Essa é a má notícia: O desgraçado tá vivinho da Silva. Parece que um garçom achou ele esvaindo em sangue no chão do banheiro – quando disse isso, Canela esticou os braços e imitou Roberto caído no chão, uma típica manifestação do bom sádico que Canela é- e levaram o coroa pr'um hospital. Fizeram cirurgia, e ele  tá internado, em estado grave, mas falaram que vai se recuperar.

Diva arregalou os olhos, estava claramente entrando no seu estado paranóico.

_Então o chefe deve ter comido teu rabo. Tá tudo bem, Nicanor? Olhei firme pro Canela, sabia que mesmo que ele mentisse, ia se entregar com aqueles olhos rodeados de olheiras.

_Bem, o chefe praticamente comeu meu rabo, já que eu fui o encarregado de finalizar o maldito, e vocês só do suporte, eu devia ter atirado na cabeça do filho da puta. Mas tudo bem- Canela levantou-se, pegou uma caneca de café e acendeu um cigarro- Eis a primeira boa notícia: Parece que o Cunha borrou as calças e mandou pagarem o patrão.

Diva balançou a cabeça e tocou a mão de Canela.

_Menos mal.- Careca se manifestou com jeito de quem tirou um peso das costas.

Diva cruzou as mãos sobre a mesa:

_Ele viu nossas caras, Canela. Isso vai dar merda.

O cabeludo riu alto, tragou o cigarro mentolado e enjoado, e soltou a fumaça pelo nariz grande:

_É aí que entra e outra boa notícia, meu amor:  Eu vou matar ele. De novo.

O Poleiro permaneceu silencioso, até Diva se levantar e encher uma caneca de café.

 

 

 

Capítulo 18: Feijoada completa (até demais)

 

 

Carolina tem sentido minha falta no leito, se é que me entendem. Tenho usado a desculpa de que não quero machucar o nenê, mas eu não ando “comparecendo” porque não suportaria dormir com duas mulheres ao mesmo tempo. Não quando uma é a mulher mais pura e boa que já conheci, e a outra é minha perdição e meu amor. Queria ter o poder e a cara-de-pau de Nicanor.

Carol levantou-se cedo como de costume, e estava sentada na mesa tomando suco de laranja (ela deixou de tomar chás por medo de serem abortivos, e café por ter cafeína), com uma mão apoiada na barriga grande de seis meses de gravidez.

_Bom dia, Carol. Como tá o nenê?

_Ótimo, já me chutou bastante hoje de manhã e eu mal dormi essa noite. É muito difícil achar uma posição com esse barrigão todo.- ela sorriu e Carol sempre parecia uma criança sorrindo, ao menos pra mim.

_Tua mãe vai vir pra cá hoje?

_Vem sim, ela disse que não quer me ver fazendo faxina nem nada que possa me cansar.

_Sei.

Sentei-me, e enquanto comia um pedaço de pão, Carol começou a tagarelar sobre coisas pra comprar pro nenê, que por acaso ela insistia em não saber o sexo.

_Tenho que fazer um chá de bebê, Carlos! Vou chamar Diva, tenho certeza que ela vai adorar me ajudar com a festa.

_Ótimo, Carol.

_Vou fazer nesse sábado,então marque algo com o Canela. Homens não são bem vindos.

Ela levantou-se devagar, com as mãos nas costas, me deu um beijo na testa, eu beijei meu (minha)  filho (a) e ela saiu cantarolando algo irreconhecível pela casa.

 

 

 

 

O jardim da casa de Ofélia era um dos mais grandes e bonitos que já vi. Além de um balanço e bancos de praça, havia uma árvore centenária grande e pomposa, onde Helena costumava procurar por insetos. Hoje, além de mim Maria observava a filha brincando pelo jardim gigantesco, sempre atenta a qualquer perigo que Helena pudesse correr.

_Tua filha é linda, Maria.

Ela riu, aquela risada de mãe boba e coruja.

_É mesmo, né?

_Sabe, hoje quando vi Carol toda feliz com o nenê, eu lembrei de ti.

Maria me encarou com aqueles olhos negros,  surpresa por ouvir seu nome e o de Carol numa frase que não comparasse ou insultasse.

_Eu pensei em como tu deves ter ficado com essa pestinha na barriga. E eu nem tava perto pra ver isso.

A santa baixou a cabeça, como se não pudesse aguentar essa confissão,  virou aquele rosto pálido totamente cheio de lágrimas, sentou mais perto de mim e me beijou como se fosse a primeira vez. Senti o gosto das lágrimas de Maria, senti seu corpo desfalecer quando me abraçou, eu senti a Maria de verdade. A Maria que eu amava e chamava de santa.

_Ah! Tá namorando!

Helena veio gritando e nos pegou de surpresa, saiu pulando, rindo e cantando “Tá namorando”, e em vez de raiva nos veio um ataque de riso maravilhoso.

 

 

O cheiro do mar entrou nas minhas narinas e me fez tossir.

_Quê isso, guri? Tá doente?- Canela riu e me jogou outra lata de cerveja.

A praia estava vazia, a não ser por nós dois e um ou dois casais de namorados que passavam procurando um canto deserto da praia. Suspirei e tomei um gole de cerveja, Canela começou a cantarolar “Love me do” e olhei pra ele de esguelha: Nicanor sem camisa, descalço na areia da praia, só de bermuda: Visão do inferno pra homens como eu, paraíso pras mulheres.

_Ofélia já voltou?- perguntei.

_Já voltou sim. Ontem a noite, não visses ela em casa?

_Não.

_Claro que não!-Canela gargalhou e me deu um tapa nas costas- Não viu porque ela foi matar a saudade do Canela aqui. Os ares europeus fizeram tão bem pra ela, Deus do céu!

_Sei, comeu Ofélia enquanto a Divina ficava lá na minha casa, até tarde, ajudando Carol a arrumar as coisas pro chá de bebê hoje.

_Isso mesmo. - Canela deu um gole na cerveja e fez uma careta: provavelmente estava quente.

_Queria ter teu sangue-frio, cara. Não sei fazer isso, pelo menos não sem me sentir culpado.

O cabeludo gargalhou alto:

_Todo mundo consegue trair, Carlinhos. A culpa faz parte do negócio.

_Não falo de traição, Nicanor. Eu falo de ficar com as duas ao mesmo tempo.

_Quer dizer, que se você tivesse comendo outra mulher, nada de Carolina Sara  da Silva Linhares pra você?

_Isso mesmo.

Levantei minha lata de cerveja quente, e dei o último gole. O barulho do mar era tão alto aquela hora da tarde, que parecia canção de ninar. Canela levantou-se, amassou sua latinha de cerveja, pegou a minha e foi até o calçadão pra joga-lás no lixeiro.

_Tu és estranho, Carlinhos. Mas eu aposto, que se fossem duas deusas como Ofélia e Diva, lindas e de verdade, não essas mulheres de Playboy que pra mim parecem um pouco com bonecas infláveis, você conseguiria comer as duas na boa.

Canela saiu gritando e pulou dentro d'água, e eu fiquei pensando “Você é que pensa, Nicanor”.

 

 

 

Eu e Nicanor saímos da praia por volta das 19:00 horas, ele ficou em casa e eu fui direto encontrar Carol, imaginando que o tal chá de bebê já tivesse acabado. Haviam dois carros na frente de casa, o de minha sogra e um New Beetle preto, e eu não consegui me lembrar de alguma parente ou amiga de Carol que tivesse um desses. Minha sogra estava na cozinha, cortando pedaços de bolo e levando pra sala:

_Carlos! Ainda não acabou!- gritou a velha oxigenada.

_Deixa mamãe, não tem problema! Vem cá, amor!- ouvi a vozinha leve de Carol gritando da sala. Peguei um pedaço de bolo do prato que minha sogra levava, dei-lhe um beijo na face ainda bonita e assim que entrei na sala me deparei com montes de fraldas, chocalhos, roupinhas, e outros acessórios pro nenê. Mas as visões mais bonitas e desesperantes que vi estavam sentadas no sofá da minha sala, ao lado de minha mulher grávida e com a barriga à mostra pintada.

Lá estavam elas, Ofélia linda e morena com seu jeito cruel e simpático, e Maria, com as faces coradas, tomando uma xícara de café.

_Carlos, sua chefe e sua amiga vieram trazer um presente pro nenê.Não encontrou Diva no caminho? Ela acabou de sair e...- Carol levantou-se devagar e veio me dar um beijo. Aproveitei pra calar a boca da minha mulher, antes que soltasse algo sobre um tal cabeludo chamado Canela.

Fiquei encarando Ofélia, que me evitava e mesmo quando seus olhos castanhos paravam nos meus, era um ar de deboche que eu encontrava. Maria estava corada e definitivamente desconfortável. Carol voltou e sentou-se:

_Então, Malu,- Esse era o jeito que Ofélia chamava Maria, provavelmente deve tê-la apresentado assim-Você disse que é mãe, certo? Me conta, é muito ruim a dor do parto?- ouvi minha esposa pura e delicada soltar.

Maria desviou seus olhos de mim, e disse um pouco tímida:

_É ruim, sim. Mas comigo compensou tudo quando peguei Helena no colo.

Carol e Ofélia sorriram. Notei Chico enrolado no colo de Maria, o gato cinza e gordo ronronava alto e de vez em quando soltava um miado forte enquanto Maria acariciava-o atrás da orelha.

Carol me lançou um olhar reprovador, minha sogra sentou-se ao lado da filha.

_Amor, pode por favor ir tomar um banho? Encheu toda a casa de areia.- Carol disse de leve, não como quem dá uma bronca, mas mesmo assim soava severa e firme.

Saí da sala, e antes de fechar a porta e ir tomar banho, vi os olhos negros lacrimejarem e uma boca fina italiana tremer.

 

 

 

Bônus: Pedaços de Canela

 

Ofélia tirou cada peça de sua roupa como quem saboreia uma refeição. Os acordes deslizavam por suas pernas esbeltas, e faleciam embaixo de seu salto 12. A voz  de Lennon gritava “I Want You” com tanta força, que Canela sentia como se ele próprio estivesse cantando. A morena rebolou, devagar, no ritmo da música, e no momento em que Ofélia sentou no colo do cabeludo e mordeu seu pescoço, Nicanor cantou junto com John Lennon:  She's so Heavy!

 

~

 

Diva tinha os cachos desarrumados pela manhã, os cachos desarrumados mais lindos do mundo (já que os de Ofélia nunca se desarrumavam). Ela caminhou até a cozinha, só com a camisa branca que Canela estava vestindo antes de ser arrancada com mãos gordinhas e brancas. Voltou com uma caneca fumegante de café, sentou de pernas cruzadas bem em frente a um cabeludo ofegante e suado. Diva pousou seus olhos de amêndoa sobre Canela, tocou de leve seu rosto mal barbeado e deu-lhe o beijo mais apaixonado em tanto tempo de “namoro”. Depois se levantou e tomou um gole de café:

_Vai pro banho, Canela. Tá fedido, hein?

Saiu deixando a visão das pernas grossas e brancas, e mesmo com a grosseria de sempre, Canela sentiu-se amado.

Ou ao menos foi assim que ele me contou.

 

 

 

 

O bandido e a santa - Capítulo 15

  • Jan. 18th, 2008 at 12:24 AM

Capítulo 15 - Agora falando Sério


Aspirei toda a fumaça que pude, e senti meus pulmões queimando de felicidade. Fumar é quase tão bom quanto sexo, eu diria. Melhor que isso, só fumar antes ou depois do sexo, não durante, porque daí não se aproveita nenhum dos dois. O mais engraçado, é que nunca fumei um pós-coito enquanto estive com Maria (ou Luiza). Maria sempre odiou cigarro.
_Larga isso, bandido. - disse com aquela boca rosada e fina, jeitinho de anjo, e me arrancava o cigarro dos lábios como quem acaricia um nenê.
_Tu fazia isso com teus clientes?
_Não. Mas cobrava mais caro.
Dessa cena, me lembro por último das mãos bobas de Maria percorrendo minhas calças. O resto até me lembro, mas não preciso contar, né?
Soltei baforadas lentas da fumaça, estava sorvendo cada parte de nicotina que podia, queria morrer logo, queria que tudo acabasse. Mas como todo ótimo covarde, me mato aos poucos, porque é muito mais poético, concordam? O café que eu tomava estava frio, fraco e a xícara era suja. Uma bosta de lugar esse que andava frequentando, estofados rasgados, pintura descascada, clientes ainda mais descascados e rasgados. Tudo era uma merda, mas só decidi que não iria mais lá, quando tocaram Chico Buarque.
Até hoje ele me lembra Maria, e não importa a música ou circunstância. Eu prefiro ouvir música eletrônica a ter que lembrar daquelas pernas, daquelas curvas e principalmente: daquela maldita boca fina.
Naquela noite, eu tirei toda a lingerie de Maria com os dentes. Ela ria e fazia graça com cada peça, me beijava com aquele jeito de moça apaixonada, com aquele jeito acuado de louca. Me lembro de cada traço, de cada gesto e de cada gemido que ela deu. Sempre, mesmo que eles se confundam na linha do tempo, eu saberia reconhecê-los a qualquer momento.
_Carlos? Geme pra mim?  - ela me dizia assim, no meio de tudo, com uma vozinha de doer o peito.
Eu nunca resisti a um pedido de Maria, e só com ela eu soltava todos os monstros. Carol nunca pode dizer que me ouviu gritar. muito menos gemer..
O problema, é que Maria voltou. E se ela me pedisse pra gemer de novo?




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_Carlos! CARLOS!
Acordei com Carol me sacudindo no meio da madrugada. 3 horas da manhã.
_Que é mulher, pelo amor de Deus?!
_O nenê, o nenê chutou!
Senti meu peito sendo apunhalado. Acariciei a barriga da mulher que carregava um filho meu. Sem meu consentimento.
_É ativo esse nenê.
Ela sorriu. Vi seus olhos azuis deixarem escapar uma lágrima linda que morreu na boca de Carol. Abracei-a, e ela dormiu assim, com a mão na barriga e a cabeça no meu ombro.
_Como anda a Carol, Carlinhos?
Canela estava um trapo. Olheiras fundas, roupa amassada, pálido como cera de vela.
_Puta merda, Nicanor! Não dormiu não?
O rosto de Canela se contorceu, e até que eu entendesse que era um sorriso, levou tempo. Aquele rosto definitivamente não parecia o do cabeludo pegador.
_Eu não dormi porra nenhuma, Carlinhos. Nada. Porra nenhuma! - ele gargalhou, tomou muitos goles de café queimando e sorriu de novo.
_Diva ou Ofélia?
_As duas, meu amigo.
_Epa, como assim?
Canela sentou-se na cadeira, puxou-a mais pra perto.
Eu baixei a voz:
_As duas juntas? Como você conseguiu? Droga?
_Ah, Carlinhos, as duas juntas é sonho demais, né não?- Canela encostou-se na cadeira, tomou mais um gole de café e me disse com bafo quente - Ofélia foi se despedir de mim, estava indo pra Europa, sabe, comprar aquelas baboseiras e perfumes caros. E juro por Deus, Carlinhos, que ela sozinha já me cansou como nunca. Depois, fui até a casa da Diva, e de novo, achei uma mulher pra me cansar por quatro. Diva foi carinhosa como nunca, parecia até que ia morrer ou algo assim! Ficamos até agora lá, na cama, eu dormi na casa dela, e decidi vir na frente.
Gargalhei, e Canela soltou aquele riso carismático e escandaloso.
Eu devia ter imaginado. A divina e A deliciosa na mesma cama? Nem por milagre.

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Ouvi um samba abusado tocando no fundo. Sorri pr'aquela boca fina e cheia de batom vermelho. Ela não sorriu de volta, decidiu que ia manchar meu pescoço de vermelho, aproximou o nariz pequeno e cheirou meu colarinho.
_O cheiro dela. Da outra.
Calei. Não há o que fazer quando Luiza entra em ação. Corri a mão pelos seios grandes e brancos, e notei o quanto senti falta daquela textura. Luiza tomou minhas mãos e conduziu por seu corpo, levantou a saia cinza e subiu em cima da pia, me lançando aquele olhar de quem tem fome e não vai sair sem ser satisfeita.
Luiza me beijou, enrolou sua língua na minha, tirou minhas calças, e nós fizemos ali mesmo. Na pia. Depois levei-a pra mesa, pro chão, pra todos os cômodos da mansão. Por último, deixei-a descabelada (e linda) na porta de seu quarto, ouvi um "eu te amo, bandido" sussurrado ao pé da orelha, e fui fumar meu pós-coito na varanda da mansão.
Agora pode-se dizer que sou adúltero.

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O bandido e a santa - Capítulo 14

  • Oct. 31st, 2007 at 8:13 PM

Capítulo 14 - Acalanto para Helena.

_Isso não vai dar certo.
Canela tomou um gole do uísque caro pra caramba que ele pediu. Estávamos num trabalho, mas nada de terno ou camisa branca, era mais como um trabalho de espião do que de capanga. Pelo menos essa noite.
_Cala a boca, Nicanor. Tua Divina sabe o que faz.
Canela suspirou fundo, e dirigiu o olhar pro canto do bar. Acompanhei o Canela, e vi uma Diva totalmente diferente daquela que costuma trabalhar comigo: Os ternos e calças pretas sumiram, e deram lugar a um vestido negro com um grande decote, os cabelos já não eram novidade, e estavam soltos, Os olhos castanhos de Diva reluziam debaixo daquela luz amarela do bar do Hotel. Ela estava apoiada no balcão, e um homem alto, de pele clara tentava se aproximar. Ela sorria, coisa que raramente fazia, e quando fazia, mostrava seus dentes levemente separados. Coisa de Madonna.
_Isso não vai dar certo, Carlos. Esse cara vai machucar a Diva.
_Já mandei calar a boca, porra. Ela não é amadora. Observa.
Diva deixou que o homem tocasse seus cabelos. Eu sabia que ela odiava isso. Dizia que estragava os cachos. Canela apertou os punhos.
_Se esse filho da puta machucar ela,  juro que acerto um balaço no meio da testa dele.
_Canela, a gente tá meses atrás dele. Dessa vez vai dar certo. Relaxa.
Ouvi o cabeludo tomar mais um gole do uísque antes de ficar apavorado.
_Olha lá.
Olhei. Vi uma Diva faceira e corada, que botou a mão nos braços do homem, e disse algo no ouvido dele. Estava chamando pro quarto. Isso aí garota.
Eles subiram, e nós fomos atrás. Diva tinha que dar um jeito de deixar a porta aberta depois que entrassem, afinal de contas, arrombar uma porta num Hotel luxuoso não é uma boa idéia.
Eu e Canela paramos no 6º andar. Ficamos encostados à porta do quarto 602, e vimos pela fresta, uma deusa empurrar um homem magro e alto em cima da cama, sorrir pra ele, pegar da sua bolsa uma arma reluzente e sorrir ainda mais quando o cara soltou um "merda" alto e amedrontado.
_Cala a boca aí, garanhão. Fala mais alto e eu estouro tua cabeça.
_Essa é a minha mulher.
Canela entrou no quarto antes de mim, encostou-se na parede a uma distância razoável de Diva, mas o suficiente pra vê-la sorrir em retribuição ao comentário. Tranquei a porta, e passei a me certificar de que o grandalhão não resolvesse manifestar sua pose de macho: Amarrei-o na cama, e aquilo não me pareceu nem um pouco com um fetiche.
Depois de ter feito isso, tratei de me encostar num canto e acendi meu cigarro. A noite era de Diva, e não minha. Canela continuava na mesma parede, com a arma na mão, como quem esperava por um erro e uma oportunidade de salvar a mulher amada,ou uma das mulheres amadas.
_Vocês não vão sair dessa limpos, vocês sabem disso. - o grande e pálido homem soltou isso, meio temeroso.
Notei que Diva estava rindo, mas não porque ouvi o som da sua voz, sim porque notei que estava se balançando. Diva nunca emite som quando gargalha, parece mais que está prestes a ter uma convulsão.
_Essa é muito boa!
Ela parou de repente, como se algo muito sério tivesse sido dito, se aproximou devagar, abaixou-se, e posso jurar que mesmo naquelas condições, o maldito ainda assim olhou o decote de Diva.
_Quem disse que nós queremos sair limpos? Você fez merda pra muita gente, Souza. Mas infelizmente mexeu com a pessoa errada, dessa vez.
_A corda arrebenta do lado mais fraco, vadia.
Ouvi um estouro, e depois só consegui ver sangue e uma Diva ofegante de ódio.
_Arrebentou do teu, seu desgraçado. E vadia é tua mãe.
_Não adianta falar com defunto, Diva.
_Cala a boca tu também, Canela.
Diva saiu porta a fora, rápida como um gato, e nós dois em seu encalço.
Aquela noite tinha terminado: menos um ricaço estuprador pra encomodar.


- - - - - - - -- -


Cheguei logo cedo na casa de Ofélia, se é que se pode chamar aquilo de casa. Com certeza o termo correto seria mansão. O velho marido de Ofélia era bom como Papai Noel, e mesmo depois do que aquela morena desgraçada me aprontou, não pedi demissão. Agora que Carol tá grávida, eu preciso de dinheiro pra comprar fraldas, e eu juro que doeu dizer isso.
O dia era claro e ensolarado, daqueles em que Carol adora colocar tudo pra fora pra fazer faxina. No jardim, vi uma menina baixinha de cabelos curtos. Ela tentava a todo custo perseguir um lagartinho que corria em cima de umas pedras. Toda aquela cena parecia ter como fundo uma música da trilha sonora do filme Amélia Poulain. Ou seja: filme francês, trilha sonora fofinha e maricas.
_Ei guria, não tem medo desse bicho?
Ela me olhou como quem olha pr'um coleguinha de escola.
_Não. É bonito.
Crianças. Não tenho lá muito jeito pra me socializar com elas, mas aparentemente, essa menina não ligava se eu estava ou não tentando me comunicar. Ela contiuava tentando tocar no lagartinho, e aquela persistência e aqueles cabelos negros curtinhos me lembravam tanto Maria.
Foi falar no diabo, e aparece a mulher que fodeu a minha vida. Saiu radiante, linda, sorridente e cruel. Cruel por me privar daquele andar, daquela vida que nós podíamos ter tido.
_Helena, vem tomar café e pára de mexer com esse bicho.
A moleca de cabelos curtos deu "tchau" pro lagarto, e foi correndo na direção de Maria.
De repente, ela me notou, como quem nota uma mancha numa cortina nova.
_Bandido?
_Bandido, mãe? Onde?
A menina olhou assustada pros lados.
_Vai pra dentro Helena.
A menina entrou na mansão depressa, e não parecia ter gostado de ouvir "bandido".
_O que tu tá fazendo aqui, bandido?
Respirei fundo. Ela veio tão perto que eu podia sentir o cheiro do seu perfume. O perfume podia ser mais caro, mas o cheiro da pele era o mesmo de quando ela era puta.
_Eu trabalho aqui. Tua amiga não te contou?
_Não, Ofélia não me disse nada. - ela pareceu incrédula, perdeu-se por um instante na sua mente maravilhosa.
_Tua filha?
Maria me encarou com aqueles olhos profundos e debochados. Não havia deboche ali, dessa vez.
_É, Helena. Linda, né?
Sorriu. E puta merda! Eu quis cair aos seus pés e beijá-los, eu quis abraçá-la e fazer dela a minha santa. Mas eu não posso.
_Linda sim. Espero que meu filho com Carol seja tão lindo quanto ela.
_Que merda...?
Ela se afastou, a boca italiana tremendo. A última coisa que vi foram pernas alvas andando a passo rápido pra dentro da mansão. Depois o mundo embaçou e eu senti um gosto salgado rolar na minha boca.

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O bandido e a santa - Capítulo 13

  • Oct. 25th, 2007 at 11:14 PM

Capítulo 13 - Banho frio



Resolvi aceitar o convite de Ofélia. Afinal de contas  não ia perder nada, só ganhar. Tenho visto pouco Carol, mas ela entende, até anda feliz por achar que eu aceitei a idéia de ter uma criança. Todo dia aquela mulher me recebe com mil beijos, com mil sabores diferentes, e com um bom bolo de laranja.
Essa noite ela ficou chorosa em casa, tive de fazer a vigília de uma festa do marido de Ofélia. Uma dessas reuniões não muito grandes, em que dois ou três seguranças bastam pra segurar um marmanjo bêbado.
Ofélia se encostou na parede do salão. Ficou observando o marido jogar conversa fora com outros ricaços velhos.
_Então Carlos. E a Carol?
Senti o sarcasmo na voz da morena.
_Tá ótima.
_E o nenê? Vai vir mesmo?
Canela boca grande.
_Parece que não. Já faz três meses e ela não tocou mais no assunto.
Quase soltei um graças a Deus, mas decidi guardar pra mim. Senti Ofélia reprimir uma risada. Aquela mulher tentava me irritar de alguma maneira, mesmo me tratando com aquela gentileza. O pior é que era tão bonita, que era impossível odiá-la. Hoje estava de roxo, um roxo escuro que eu não sei como as mulheres chamam. Ofélia deu-me uma piscadela e saiu em cima de seu salto enorme. Foi apoiar-se no ombro do velho marido, que parecia ter visto um anjo quando ela se aproximou do grupo de amigos com aquele gingado.
A banda que o marido de Ofélia contratou era daquelas bandinhas acústica,s que tocam MPB, e obrigatoriamente, Chico Buarque. Não deu outra, começaram a tocar"Rita"a pedido de Ofélia, aparentamente.
Quando achei que só Chico Buarque podia me lembrar Maria, e que só tocar uma música dele já ferraria a minha noite, eu queimei a língua.
Entrou no salão enfeitado e iluminado, a mulher de pernas e seios mais lindos e pálidos que já vi, estava mais velha obviamente, mas aquilo só lhe deu um ar de mulher mais forte do que antes, e juro que caí de quatro quando a vi. Estava de branco, como na noite em que era Luiza. Os cabelos negros, estavam compridos, coisa que aprovei, e como sempre tinha aqueles olhos profundos e penetrantes,e aquela boca italiana.
Ofélia apressou-se e deu-lhe um abraço apertado, antes que aquela morena diabólica pudesse me achar, me escondi e fiquei observando a mulher que destruiu a minha vida. Linda. Continuava sendo a minha Maria, a minha Luíza. Senti vontade de pegá-la pelo braço, de beijá-la inteira de bater naquela cara de vagabunda, de xingá-la por ter feito de mim um idiota sentimental. Era óbvio que Ofélia estava me procurando, mas notei que Maria não notou o plano da Deliciosa, pois estava calma, normal, parecia até triste.
Eu queria acariciar aquela maldita. Queria que ela fizesse de mim o que fez nanoite do banheiro, eu queria me perder naquelas curvas, naqueles seios, naquelas pernas.
Fui embora.


-----------------------------------------



Ofélia era uma vagabunda. Uma ordinária, eu queria matar Ofélia com as minhas mãos! Não! Pior! Eu quero contar pra Diva que vem sendo enganada a anos!
Não. Isso ferraria a vida do Canela.
Cheguei em casa e me enfiei no chuveiro. Nem mesmo fui ver se Carol estava dormindo. Deixei a água cair, pra tentar lavar a lembrança dela de mim.
Vi minha imagem refletida. Não sou mais o mesmo. Meu cabelo anda muito curto, e ultimamente tenho feito a barba, embora hoje esteja maior. Minhas marcas no rosto aumentaram, eu não sou mais o cara forte que era quando ela me deixou. Eu não sou mais um moleque.
A água caía nas minhas costas, queimando como brasa. Fechei meus olhos, tentando apagar aquela imagem maldita da cabeça. Aquela boca...
Fui interrompido pelo barulho do box do chuveiro. Carol estava de pé, na minha frente, os cabelos escuros soltos, caindo em cima dos seios brancos e de auréolas rosa. Nua, ela estava nua, e me abraçou como se tivesse ficado longe de mim um ano, senti os lábios dela pressiorem os meus, e todo o seu corpo se tornando mais e mais quente.
Me perdi naquelas curvas delicadas achando que beijava uma boca italiana.
Quando me dei por conta, estávamos deitados no chão do banheiro, com o chuveiro ligado. Carol recostou a cabeça nas minhas pernas, me olhou fundo com aqueles olhos azuis e disse firme, porém com voz chorosa:
_Tou grávida.
Forcei um sorriso antes de ser cegado pelos cabelos escuros de Carol, assim que ela me abraçou.

O bandido e a santa - Capítulo 12

  • Oct. 25th, 2007 at 10:12 PM

Capítulo 12 - Proposta

_É esse tipo de lugar que você frequenta quando não tá em festas chiques em que não se entra sem terno e gravata?
Ofélia riu. Sorriso bonito.
Tocava Doors na lanchonete, o que na minha opinião é um ponto a mais, mesmo que lá a garçonete não te olhe de cara feliz de quem se maqueou pra vir trabalhar, ou mesmo que o café tenha gosto de barro.
_Eu gosto daqui. Bem exótico. - riu de novo, e deu uma golada no café horrível daquele lugar. Aparentemente ela e Diva compartilhavam o mesmo vício.
Aquela cafeteria estava longe de ser exótica, no sentido real da palavra. Era normal demais, com cadeirinhas estofadas, doces super calóricos e o café péssimo que se encontra em vários lugares nessa cidade. Reconheci a música : Roadhouse Blues. Ótima música, mas não pra uma cafeteria, eu esperava que estivesse tocando MPB, ou algo mais apropriado pra um café. Mas que bosta eu tou falando afinal? Ofélia, morena e irritante estava à minha frente, e eu pensando na decoração e música ambiente da cafeteria.
_Afinal o que tu quer comigo?
Ela baixou a xícara, olhou séria pra mim. Observei suas unhas: curtas, porém não como as de Diva. Mesmo assim, mais uma coisa em comum nas duas.
_Um convite, Carlos. Quero te convidar pra trabalhar pro meu marido, como segurança. Eu sei que o teu trabalho não é integral, então pensei, que você poderia gostar de ganhar mais dinheiro, já que agora não é mais sozinho e precisa sustentar uma família.
Estremeci. Família. Lembra mulher, que lembra imediatamente que Carol pode estar grávida.
_Não sei, Ofélia. Me parece meio estranho esse convite, depois da conversa que tivemos ontem.
_Esquece isso, Carlos. Bobagem da sua parte, foi só um comentário bobo. - ela sorriu, e mesmo assim eu consegui enxergar a sagacidade dentro daqueles olhos castanhos.
_Quanto eu vou ganhar?
_Isso é com o Márcio.
_Teu marido?
_É, ele mesmo. - Vi Ofélia tomar o último gole de café.
_Porque não chamar o Canela?
Ela me olhou com ódio, às vezes Canela me contava dos surtos que Ofélia tinha, e realmente, eu não queria presenciar um deles.
_Desejo, meu amigo. Putaria, pra ser mais específica.
_Sei.
_Pensa bem, Carlos. Eu te ligo.
Acendi um cigarro. Não consegui largar o vício. Eu só largo o cigarro por Maria.
Ofélia se levantou, deu-me um beijo no rosto, e deixou aquele perfume com cheiro de caro no ar, além disso, deixou um cara com um cigarro  e uma cabeça confusa.

---------------------------------------------

_Decidiu se vai aceitar a proposta da Deliciosa?
Canela arregaçou as mangas da camisa branca, passou a mão na testa grande e suada e deu um soco forte e barulhento num cara amarrado numa cadeira.
_Ainda não sei.
_Porque diabos ainda não aceitou?
Soltei a fumaça do cigarro no ar. O cara preso na cadeira observou a fumaça desaparecer. Canela deu-lhe outro soco. Dessa vez de esquerda. Canela além de psicopata era bidestro.
_Desculpa cara, mas a tua Deliciosa é meio doida.
Ouvi a gargalhada alta e debochada do Canela ecoar, ele aproveitou o momento de excitação e deu outro soco no cara. Boa parte de sangue caiu no chão do galpão.
_Ela é ótima, fala sério.
_Claro. Você tem um gosto bem peculiar pra escolher tuas mulheres. Todas com um parafuso a menos, Nicanor.
_Vá se foder, Carlinhos.
Canela deu as costas pro cara sentado na cadeira, bateu no meu ombro.
_Cara, pega logo essa bosta de emprego. Tu vai ganhar dinheiro. E se a Carol tiver mesmo de cria, tu vai precisar de dinheiro. - ele deu ênfase no vai. Nem imagino o motivo.
_Não brinca com isso.
Senti todos os meus músculos se contraírem.
_É sério, meu irmão! Tu vai ser papai, quer o quê? Fingir que não?
Fiquei com vontade de apagar o cigarro no Canela. Mas ele é muito mais sádico do que eu, ia adorar me torturar depois.
_Va'mbora papai, vamos acabar logo com esse cretino, ainda tenho que almoçar.
Canela olhou o relógio caro que ganhou de Ofélia. Consegui sentir o perfume dela na camisa dele, mesmo com todo aquele sangue.
Nos aproximamos do cara amarrado na cadeira. Ele cuspiu uma quantidade grande de sangue no chão.
_Vai morrer, amigo. Últimas palavras?
Perguntei, como que por caridade. O cara me olhou, deu um sorriso.
_Parabéns, papai.
Ouvi a risada de Canela sendo abafada pelo som da bala perfurando a cabeça do cara.

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O bandido e a santa - capítulo 11

  • Oct. 15th, 2007 at 11:29 PM

Capítulo 11 - Quartinho extra


"Cheguei em casa e a primeira visão que tenho, é a de Carolina dançando Chuck Berry, "You never can tell", na cozinha, de um jeitinho muito desengonçado. Me apoiei na soleira da porta, e fiquei vendo a bunda grande, que era única coisa que se sobressaía na minha esposa, rebolando feito louca, com aquele avental de bichinhos e segurando uma colher de pau suja de molho de tomate. Os cabelos castanho escuro sacudiam naquele rabo de cavalo impecável que ela sempre usava. Adorava quando ela soltava os cabelos, e isso só acontecia durante a noite, ou em ocasiões especiais. Ela se virou, e quando me viu apoiado na porta, ficou roxa, como nunca tinha visto Carol ficar.
_Carlos! Porque não avisou que tava aí! - ela arrumou o cabelo meio bagunçado, baixou o volume do rádio.
_Não queria estragar essa cena tão bonita. - me aproximei, e engatei meus braços ao redor da cintuna finíssima dela, 60 cm não era pra qualquer uma, meus amigos.
Senti os lábios de Carol pressionarem os meus, e quando isso acontecia, me sentia seguro e calmo. Maldita.
_A comida tá quase pronta, safadinho. Diva está na sala com papai e mamãe.
Deixei Carol na cozinha, terminando o molho de tomates mais gostoso da face da Terra, e fui cumprimentar meu sogro alcoólatra e minha sogra mexeriqueira.
_Olá meus sogros!
Entrei na sala azul bebê que sempre me dava sono, minha sogra veio imediatamente me encher de apertões e marcas de batom, meu sogro se limitou a dar uma acenada com a cabeça, e ficou olhando a moça da previsão do tempo de belas pernas, falando sobre o calor de 40° em Teresina.
_Oi Diva.
Ela se levantou, radiante e irritante como sempre.
_Oi, Carlinhos. - senti o tom de deboche na voz da minha companheira de trabalho. Sempre me jogava na cara que havia mentido meu nome.
_E o apartamento do Canela, muito bagunçado?
Me sentei no sofá azul marinho e macio, notei de repente que Chico vinha refugiar-se nas coxas de Diva. Senti um aperto no peito, como se eu tivesse um troll dando porradas contra meu corpo.
_Tá um lixo. Como sempre.
Diva gargalhou equanto fazia carinho em Chico. O gato estava grande, gordo e muito temperamental. Odiava Carol, e só aceitava que eu o desse carinho. Diva tinha um poder especial com animais, e além de mim, era a única quem Chico respeitava.
Ele ronronou. Lembrei de umas certas pernas pálidas e compridas.
Balancei a merda da minha cabeça. Tinha que tirar a porcaria daquela vagabunda da minha cabeça. Ofélia ia se ver comigo por ter me torturado desse jeito.
Afinal de contas, o quê ela tinha na cabeça? Foi aquela maldita quem me largou, não o contrário!
Meus pensamentos foram interrompidos quando Carol chamou todos pra comer. Fui sem pestanejar, afinal de contas, não há nada que me faça esquecer de um problema, só mesmo o macarrão com molho de tomate de Carol.


------------

Me levantei cedo, tomei um banho. Notei a minha barriguinha saliente. Porra de mulher que cozinha bem. Eu era muito mais apresentável quando comia macarrão instantâneo.
Carol havia preparado café pra mim, e já estava lá, com aqueles olhos azuis e aquele rabo de cavalo impecável, logo de manhã.
_Ah, Carlos. Não fez a barba!
_Nem vou fazer, Carol. Você sabe que a minha barba é quase um xodó.
Ela fez uma caretinha imperceptível, e foi colocando café numa xícara.
_Vou num médico hoje.
_Médico? Tá doente,Carol? - larguei a xícara na mesa.
_Parei de tomar anticoncepcional, Carlos.
_O QUÊ?
Ela arregalou os olhos, se tornou indefesa e temerosa, parecia prestes a chorar.
_Eu quero ter um filho, Carlos. Eu tenho esse direito.
_E eu tenho o direito de ser consultado!
_Eu sei, Carlos, tou te contando agora. Parei faz uns 6 meses...
_E só agora tu vem me contar?!
Porra! Um filho, agora? Que merda! Eu quero ser pai, mas não me sinto pronto pra ter uma criança. Não agora, não com o emprego que eu tenho. Quem manda não usar camisinha?
Carolina abaixou os olhos, e eu notei que disfarçava umas lágrimas teimosas.
_Desculpa, Carlos. Eu não tou grávida, não se preocupa. Só ia no médico pra ver como anda minha saúde, se eu estou bem pra ter um bebê.
Nós até já tínhamos um quarto pra essa criança. Carol exigiu um quarto para um filho, quando construímos a casa.
Respirei fundo, tomei um gole de café, e dei um beijo na testa da Carol.
_Tudo bem, Carol. Vai no médico, eu tenho que ir.
Deixei ela lá, com aquela cara de cachorro abandonado.
Mal saí de casa, e lá estava ela. Morena, cabelos cacheados e uma expressão de quem ia se divertir muito.
_Que é agora, Ofélia?
_Vamos tomar um café, Carlos? - ela sorriu. - Tenho algumas coisas pra te dizer.
Aceitei. Qualquer café que não tenha gosto de gravidez é aceitável."

O bandido e a santa - capítulo 10

  • Oct. 8th, 2007 at 11:41 PM

Capítulo 10 - Cotidiano


Se eu fosse escolher uma música de Chico Buarque pra representar minha vida, seria Cotidiano. Me casei já faz um ano, e Carolina é a mulher dessa música: carinhosa e com um gosto diferente em cada parte do dia.
Não pensem que me casei meses depois de perder Maria. Eu não conseguiria fazer isso. Conheci Carolina um ano depois de Maria ter me abandonado, namorei-a dois anos, noivamos durante um, e casamos.
A essa altura da minha vida já estou nos vinte e sete anos. Um rapazote, como diz meu sogro alcoólatra. Esses quatro anos foram calmos, apesar de continuar trabalhando como capanga. Meu cargo subiu, sou o braço direito do chefe e isso não é lá grande merda. O Canela continua enganado Ofélia e Diva, só que Ofélia agora é casada, o paizão dela nunca iria autorizar o relacionamento com um capanga.
Conheci Carolina como quem conhece a mulher com que vai se casar, e não uma grande paixão.
Uma grande padaria, colorida e cheirosa, daquelas que te fazem ter vontade de comer tudo que há lá dentro. E a atendente de padaria mais adorável que já vi. Lá estava ela, com a toquinha característica e um avental azul, escrito Doce Sabor. Esses nomes de padaria sempre são péssimos.
_Um sonho, por favor.
Ela me olhou, com o jeito típico de uma atendente, mas logo a expressão mudou. Sorriu de leve, e disse a coisa mais linda:
_Doce de leite ou creme?
_Doce de leite.
Coisa mais brega, eu sei. E apesar de não ser o mulherão que é Maria, ela é a coisa mais delicada e harmoniosa que Deus (se ele existe) possa ter feito.
Dali pra frente, frequentei a padaria por um mês, todos os dias, até mesmo aos sábados de manhã. Com o tempo fui engordando. Resolvi passar do sonho pro café com adoçante.
_Vai querer o quê hoje, Seu Carlos?
_Carlos, por favor. Me chamando de "Seu Carlos" até me sinto seu tio ou algo assim.
Ela sorriu.
_E hoje eu quero um café preto com adoçante. Regime, sabe como é.
_Não sei por que fazer regime. O senhor está super em forma.
Não sei porque me senti a mulher quando ela me disse isso.
_Me chama de "você". E a propósito, qual é teu nome olhos azuis?
_Carolina.
_Carolina. Que lindo. O nome de uma música do Chico Buarque. Quer sair comigo, Carolina?
Ela ficou roxa, e disse um sim abafado.
Eu tomei meu café preto sem gosto, parecendo comer um sonho recheado com doce de leite.
Nosso primeiro beijo, foi como se eu estivesse conquistando uma menina da oitava série, que tem medo de tudo. Beijei-a no portão da sua casa, e senti Carolina tremer ao toque de meus braços, e ela ria muito quando roçava a barba em seu queixo.
Na semana seguinte fui convidado pra conhecer a família.
Carolina me chamou a atenção justamente por ter esse jeito menina, mulheres ousadas eu tive muitas, mas doces como ela, nenhuma.
Se eu disser pra vocês que Carol era virgem, quando me casei com ela?
Ofélia riria disso: "Puta merda! Vinte anos e nenhuma trepada! Coitada!".
Eu achei engraçado, e respeitei isso. Mas me sentia desconfortável por ser o primeiro. Ao contrário do que alguns idiotas pensam, ser o primeiro não é nada bom. A primeira transa é quase sempre muito ruim. Mas a nossa lua de mel foi ótima, num lugar lindo: Ilha do Mel. Comi aquela menina de todas as formas possíveis, e depois de alguns dias ela já estava como se tivesse feito sexo aos dezesseis. Carolina era doce na hora do sexo, e eu nunca fiz com ela como fazia com Maria. Maria era profana, o meu maior pecado e minha maior alegria. Com Carolina é tudo muito lento e prazeroso, podemos ficar horas seguidas só em preliminares, e depois, tudo cai como uma avalanche.
Agora, vou passar na casa do Canela, bater um papo e deixar minha arma com ele. Não quero que Carolina me veja com ela, até porque ela pensa que sou um segurança comum que mal sabe manusear uma arma. Bati na porta, e quem atende é ninguém menos que a morena mais deliciosa existente na Terra.
_Oi,Carlos!- ela me abraçou apertado, senti o cheiro dos cabelos cacheados, que pareciam não ter crescido absolutamente nada.
_Oi Ofélia. Como é que vai?
Ela me puxou pela mão, e me colocou sentado num sofá vermelho cheirando a mofo. Se a Carol visse isso, com certeza ia ficar irritada com o cheiro.
_Vou muito bem, Carlos. E o casamento, como anda?
_Ótimo. Carolina é um doce.
_Canela me disse que tua esposa é uma santa!
Senti uma facada no peito, meu rosto se contorceu e pensei que fosse cair no choro feito um maricas.
_É sim, mas não na hora que tem que ser safada. - até que saí bem, hein?
_Isso é o que importa, Carlos. Um bom sexo. Ou muito dinheiro. - ela saiu rindo.
_Com o teu marido é o primeiro ou o segundo?
_O segundo, obviamente. O velho não dá conta nem de ver uma Playboy. Eu tenho o Canela pra fazer o primeiro.
_Carlinhos! Que tá fazendo aqui, irmão?
Veio aquele cabeludo com algumas entradas no cabelo, quase imperceptíveis, muito barbado e com pinta de cafajeste.
_Como vai, Nicanor?
Ele me deu um soco no braço e eu pude ouvir a risada fofa e baixinha de Ofélia, vinda da cozinha.
_Meu nome não, Carlos. Menos, hein. Como tá a Carol?
_Linda e gostosa, como sempre.
_Imaginei. Bem, vou lá na padaria comprar leite. Ofélia gosta de café depois do sexo.
Ela mandou ele pra um lugar bem feio.
_Vou indo também, Canela. Só vim aqui deixar minha arma.
_Não mesmo! - Ofélia veio correndo da cozinha- Eu fiz um café bem gostoso pra você, e faz tempo que não conversamos, Carlos. Senta aí.
Obedeci com um gesto afirmativo do Canela, que saiu cantarolando Nadine pela porta afora.
_Então, Carlos. Já tem filhos?
Que porra de pergunta era aquela? Engasguei com o café.
_Não!-disse ainda tossindo.
_Maria tem uma filha.
Fiquei impassível. Congelei. Senti todos os meus músculos se contraírem, senti minha pele mudando de cor como se fosse um desenho animado, e a minha vontade era a de socar Ofélia.
_Que bom pra ela.
_É mesmo, não é? Ótimo, ainda mais agora que está viúva.
Senti um calor prazeroso invadindo meu estômago, que de repente se transformou em picada de cobra.
_Ótimo mesmo, ela e a filha herdaram toda a fortuna do ricaço, e estão morando na Europa. Tá achando isso ruim, Ofélia?
_Não, é ótimo. Não pensa em ter filhos, Carlos?
_Claro que penso.
_Quantos?
_Que porra é essa Ofélia?
Ela sorriu e colocou mais café na minha xícara.
_Uma conversa casual entre velhos amigos, Carlos.
Meu celular tocou. Era Carolina. Atendi sem nem ao menos pedir licença pra Ofélia. Ela não se importou.
_Oi, amor, fala.
_Carlos? Não vai vir jantar? Mamãe e papai vieram jantar com a gente e tu não tá aqui!
_Já vou, Carol. passei na casa do Canela, já estou indo.
_Chama ele pra jantar, Carlos, Diva também tá aqui.
_Não Carol, o Canela não tá em casa, não te avisaram?
Ofélia levantou uma sobrancelha.
_Ah! É mesmo! Diva tá me falando aqui que ele foi pra casa do pai, em Porto Alegre. Tudo bem, então. Vem logo amor. Te amo.
_Também te amo, Carol.
Desliguei e antes que Ofélia pudesse me bombardear com mais perguntas estranhas, agradeci o café, dei-lhe um beijo no rosto e me despedi.
Fui jantar com minha Carol e sentir sua boca de pavor antes de dormir.

O bandido e a santa - Capítulo 9

  • Oct. 8th, 2007 at 3:54 PM

Não esqueçam de ler o oito! Postei muito junto! : )




Capítulo 9  - A mais bonita


Um cálice com vinho tinto era o enfeite mais bonito de todo o estabelecimento. E ele era o primeiro de muitos que eu veria e tomaria naquela noite. Estava no restaurante em que conheci Maria, aquela vagabunda. Foi-se embora e levou junto o meu sorriso, no sorriso dela.
A luz do restaurante parecia transformar todo o ambiente numa foto sépia com manchas de café preto. Uma deusa de pele morena entrou no restaurante, de vestido vermelho e cabelos cacheados como nunca se viu igual, e eu nem notei. Estava decidido a me embriagar até que alguém me esquecesse.
Ela sentou na minha frente. Olhos amendoados que refletiam a pena que ela sentia por ver um cara como eu tão acabado. Tudo por causa dela. Da minha santa.
_Ofélia. Que surpresa.
_Como vai, Carlos?
_Como pareço que vou, Ofélia?
Ela silenciou. Entendeu que eu estava fora de mim. Não tinha cabeça pra perguntas bestas, mesmo que viessem da boca, d'A deliciosa.
_Maria precisava ir, Carlos.
_Não fala de Maria.
_Eu tenho que fazer isso. Ela me pediu.
Ofélia chamou o garçom e pediu um martini. O garçom tarado ficou mirando o decote dela.
_O que ela mandou você dizer? Que me ama?- soltei num tom sarcástico, que Ofélia ou ignorou, ou não entendeu.
_Sim. Mas não só isso. Pediu pra que você confie nela, e disse que fez isso por vocês.
_Foda-se a bondade de Maria. Quero ela longe de mim.
_Você já tem isso.
Ofélia me encarava. A maldita tinha olhos afiados. O garçom trouxe o martini, e colocou na frente da morena. Ela tomou com calma de quem tem a vida toda pra apreciar uma boa bebida. Terminou seu martini, levantou-se com toda aquela elegância de filha de poderoso, e mesmo assim tinha um ar violento quando caminhava.
_Já fiz o que tinha que fazer. Tenho que ir. Passe bem, Carlos. Se precisar de mim, estarei pronta pra te ajudar.
Deu-me as costas, foi ao balcão, pagou seu martini, e seu vulto perdeu-se na multidão de cabeças que viravam-se discretas pra espiar Ofélia ir embora.
Tomei o primeiro gole do meu vinho tinto. Ninguém afastou de mim aqueles cálices.

~


A igreja estava toda enfeitada de branco e rosas vermelhas. Os convidados sentados, sorriam e acenavam pra mim, que estava no altar, esperando o momento em que me enforcaria, como diria Canela. Ele estava ao meu lado, de mãos dadas com Diva que como sempre, estava divina,com seu vestido verde e seu cabelo cheio e cacheado, me perguntava se ela chamaria mais atenção que a noiva. Não pude convidar Ofélia pro casamento, afinal de contas, eu não queria um rio de sangue enfeitando a igreja, até fica bonito metafóricamente, mas só.
_Tudo bem aí, cara? - Canela me cutucou. O cabelo dele estava solto, fazia isso em ocasiões especiais.
_Tudo ótimo, Canela.
_Tem certeza? Ainda dá tempo de fugir!
Diva pisou no pé do psicopata com seu salto fino. Ele se calou.
Minha sogra chorava, antes mesmo que a noiva entrasse na igreja. E tenho que admitir, que as minhas mãos tremiam e suavam mais do que em qualquer ocasião em que matei alguém.
A música começou a tocar, e todos os sussurros silenciaram,  os olhos se voltaram para a a mulher de branco ao lado do senhor grisalho e aspecto doente. O tempo que demorou para que chegassem ao altar, pareceu uma eternidade, e nessa altura minha sogra parecia uma criança que levou injeção.
A noiva parou na minha frente, o véu sobre o rosto, e mesmo assim era visível um sorriso imenso . Levantei o véu, e vi os olhos mais azuis e serenos do mundo, a boca mais delicada e o rosto mais angelical. Traços finos, bochechas rosadas, pele macia e branca. Os cabelos escuros ondulavam sobre seus ombros e as famosas saboneteiras. Nem Diva apagou o brilho branco e puro dela.
A mais bonita: Carolina.

O bandido e a santa - capítulo 8

  • Oct. 8th, 2007 at 2:55 PM

Capítulo 8 - Chico e Olha Maria

Um gato cinza e ainda filhote andava atrapalhado pelo tapete felpudo do Motel.
_Taram!-Maria cantarolou feliz e sorridente. Ela estava simplesmente brilhando, parecia que algo a tornava ainda mais linda, e não era um corte de cabelo novo, ou uma nova cor de esmalte, até porque Maria sempre pintava as unhas de vermelho.
_Que isso, Maria?
_Um gato. - ela sorriu, pegou o filhotinho no colo e ficou fazendo carinho. O gato parecia bem feliz entre os dedos macios de Maria.
_E pra quê?
_Vai pro inferno, Carlos, é o meu presente. - disse, cansada do meu joguinho de palavras.
_Um presente vivo, que come, faz cocô e é peludo.
_Não fala assim do Chico.
_E mais essa! Já veio com nome!
Maria fez cara e ofendida, colocou Chico no meu colo. O gato me olhou com olhos verdes gigantes, e miou levinho.
_Ele gosta de ti. - Aquela maldita santa sabia como me convencer.
Coloquei Chico em cima da cama redonda, e ainda sonolento, ele miou e caiu num sono de gato, todo enrolado, como a boa bola de pêlos que ele era.
Agarrei Maria ali mesmo no tapete, e nos desembestamos até que Chico acordasse e fosse dormir em cima das pernas pálidas dela.


~


Cheguei no Poleiro já passava das 8:00 da manhã, e parecia que Diva estava fazendo um estrago muito bom em todo mundo que estava tentando conversar com ela. Nem precisei pedir pra que nos deixassem a sós, assim que entrei na sala, se virou de cara feia (se é que isso era possível) e mandou que toda a corja de maltrapilhos saíssem. Eles acataram sem dar um pio.
_João, é bom você me falar a verdade, senão vai sobrar pra você.-ela falava num tom grave que meteria medo em qualquer um. Mas eu sou amante de Maria, portanto, Diva era como uma criança brava.
_Que houve, Diva? - me sentei no sofá, e fiquei olhando a divina andando de um lado pra outro, e quase imaginei um buraco se formando no piso.
_O desgraçado do Canela tá me traindo?
_Eu nunca vi ele com ninguém.- não me venham com essas caras de que menti. Eu não menti. Nunca vi Canela e Ofélia juntos.
_É bom  ser verdade. Porque eu notei uns arranhões que não fui eu quem fez.
_Como é que você sabe? Vai que na hora da empolgação...
_QUÊ?-ela me encarou com ódio-Olha pra minha unhas, João! Essa bosta NUNCA cresce!
Realmente. Unhas curtas e mal pintadas. Um ponto fraco na Diva, afinal, pra mim, as mãos são parte importante de uma mulher. Ah, as mãos de Maria...
_Ok. Diva, fica calma, o Canela te adora. Você sabe disso.
_Ela sentou, respirava forte e parecia prestes a bater em alguém ou algo. Eu rezo pra que não seja eu.
_Eu sei, tá. Bem, se você diz que nunca viu o Canela com ninguém, eu acredito.
Diva levantou-se, pegou uma caneca de café, daqueles de doer o estômago de tão forte.
Eu continuei sentado, e engoli em seco.

~


Chico estava dormindo em cima do meu sofá estranho e furado, quando abri a porta, ele abriu imediatamente os olhos grandes e deu um miado, como quem diz "até que enfim". Esse gato tem sido uma boa companhia, e é até bem educado, fazia suas necessidades na caixa de areia que Maria comprou (com o nome dele entalhado), e quase não soltava pêlo. Em compensação, meu sofá estava mais fodido que o normal. Me sentei ao lado do gato, acariciei atrás da orelha dele, ele miou, deu um pulo pro chão, e foi comer aquela ração que fede pra caramba.
Olhei para as mangas da minha camisa: sujas de sangue. Dessa vez não estourei a cabeça de ninguém, foi obra de Diva, que numa missão perdeu a paciência com um cara que meteu a mão na bunda dela. Diva deu-lhe um soco no meio das fuças,  continuou chutando, mesmo depois de caído no chão. Tive que puxá-la pra que não mandasse o cara pro hospital. Resultado: Levei um soco. Limpei o sangue na manga, e cuspi no chão.
_Porra, Diva.
_Foi mal, João. Foi reflexo.
Ouvi a risada abafada do filho da puta do Canela.
Levantei, tirei camisa. Esses meses trabalhando como "segurança" estavam deixando alguns músculos mais definidos. Coisa de fresco.
A campainha tocou, abri a porta. Ali estava Maria, com a cara mais estranha que já vi.
_Maria Maré! Tá doida de vir aqui?
Ela não me deu ouvidos, entrou, fechou a porta, e já foi me beijando.
Juro por Deus, que nunca vi ela tão sedenta, e ela nem ao menos era Luiza. Ela era Maria, uma Maria feroz, com certo ar de melancolia e pressa. Ela percorreu todo meu corpo, como se quisesse memorizá-lo, e eu fiz o mesmo, mesmo que ela já estivesse na minha cabeça vinte e quatro horas por dia. Senti o gosto da sua boca italiana, e a pressão das suas pernas. Amei daquela vez como se fosse última.
Quando acordei, já era tarde, e ela não estava mais lá. Só sentia o cheiro dela no ar, o cheiro dos cabelos, do corpo e do perfume. A melhor fragrância existente no universo.
Achei um bilhete no criado-mudo ao lado da cama. E se ele não fosse mudo, me diria com voz firme:
_Maria fugindo.

O bandido e a santa - Capítulo 7

  • Oct. 2nd, 2007 at 11:57 PM

Capítulo 7 - Virgens e escopiões.


_Olha aqui, amigo: eu adoro torturar os caras que se negam a pagar o que devem, e eu ando com algumas arminhas especializadas nessa arte. Tá afim de experimentar?
O Canela me dava arrepios quando falava assim. Parecia que ele se divertia tanto torturando alguém, quanto fazendo sexo com Diva ou Ofélia, ou ainda, as duas, se fosse possível.
Mas o fato, é que nós não estávamos ali pra matar o filho da mãe, só pra dar um susto, pra ver se pagava a dívida pro chefão. Mas o Canela levava isso a sério, e queria que o cara saísse borrado de dentro daquela sala. Acho que ia conseguir, se os miolos dele não tivessem sido estourados antes.
E lá estava ele, cabelo amarrado, o que fazia muito bem, já que era super desgrenhado, a barba, grande, mas mesmo assim muito bem aparada, e o terno promoção de ponta de estoque. Era alto, o Canela. Nunca perguntei o porque desse apelido. Cheiro de Canela ele não tinha.
Canela ligou o aparelho de som, que estava em cima de uma mesa muito estranha e capenga que sempre ficava naquela sala. Começou a tocar Chuck Berry, Nadine, pra ser mais específico. Sinceramente, aquela música dava um ar muito cômico pra cena que não era nada cômica. Canela encheu o cara de porrada, a cara do rapaz era branquela, e o Canela fez dela um tomate gigante e vermelho, chutava a cara do rapaz, até que ele resolvesse falar algo, e cada vez que ele gritava, Canela dava uma risada alta e agoniante. Fiquei puto com aquela merda, e resolvi intervir. Grande herói de bosta eu sou, devia ter ficado no canto mascando meu chiclete.
_Cara, pára com isso. Exagerou legal.
O Canela se virou pra mim, o rapazote loiro deitado no chão, com mãos e pés atados, se contorcia e parecia estar prestes a mijar nas calças. Eu não nasci pra ver esse tipo de degradação humana.
_Ei, parceiro, ele tem que falar, senão quem apanha é a gente.
_Foda-se. Ou pára com isso ou mata ele de uma vez por todas, porra.
O Canela começou a estalar os dedos, devagar, como quem calcula friamente o próximo passo. Se ele quisesse bater em mim, eu dava conta.
_Beleza. Então é pro caixão que ele va...
Um tiro, e de repente, miolos voaram por todos os lados da sala. O cano da minha arma estava fumegando, e o amigo Canela estava perplexo, com sangue espalhado por todo o terno. Uma faca pequena, do tipo das que caberiam escondidas no tornozelo, estava na mão do outrora rapazote.
_Porra. Valeu. - Canela balbuciou.
Eu ainda sentia a porcaria do sangue do cara nas minhas mãos, em oito meses de trabalho, eu ainda não tinha feito algo tão monstruoso. Maria me treinou bem, pra ser um bostinha medroso.
_Fiquei sabendo do cara que tu estourou os miolos, João.-Diva me olhou, daquele jeito maroto que só ela sabe fazer, e continuou tomando seu café fumegante.
_Nada de que me orgulhe, Diva.
_Sei. A sensação não é boa, mesmo. Mas quem tá nessa vida, é pra levar um tiro ou dar um.
A filosofia perfeita pro meu emprego. De agora em diante minha vida mudaria, ia me sentir muito mais macho porque matei um cara. Sarcasmo, entenderam?
Estávamos na casa do chefe. Hoje era o dia de Canela, Diva e eu ficarmos de seguranças, com mais oito caras, tínhamos uma salinha, que eu mais chamaria de salão, se comparada ao meu apartamento, que era apelidada de Poleiro pelas empregadas da casa, uma sala com geladeira, um banheiro, sofás bem confortáveis, um fogão meia boca e uma chaleira pra fazer café. Além da mesa que era constantemente usada para os jogos de carta.
_E tu, Canela? - ela desviou a atenção em mim, e focou-a no cabeludo com cara de noite mal dormida, deitado no sofá. - Tá com essa cara podre , porque?
A resposta era Ofélia, mas o Canela disse que era diarréia. Resultado:Diva ficou com pena, e prometeu que passaria na casa dele pra ajudá-lo a curar. Depois, ela foi embora, deixando o ar de sua graça e o perfume daqueles cabelos na Alcova, um cara alto, meio vesgo e de braços finos veio substituir ela, o Careca. Todo mundo tem um apelido estranho dentro da Alcova.
_Oi, Estourador de miolos - me disse o Careca.
Ouvi a risada abafada do Canela, e enfiei um chiclete na boca.

- - - - - -


_Maria?
_Fala, meu bandidão.
_Tá tudo bem aí?
_Você quer saber se eu apanhei ou se meu noivado foi pro saco?
_Na verdade o término do noivado seria uma puta benção.
Ouvi a risada gostosa da minha santa do outro lado da linha. Juro pra vocês, que a minha vontade era de mordê-la toda quanto dava aquela risada.
_Bem, você se tornou meu irmão, bandidão.
_Como é?
_Meu noivo. Achou a camisa, e me perguntou porque diabos havia uma camisa suja de sangue no meu apartamento. Disse que meu irmão sofreu um acidente de carro, e como tava perto de casa, passou aqui pra eu dar uma ajuda.
_Fala sério, Maria.
_É, ele é mesmo burro. Acreditou.
Ótimo. Pra todos os efeitos, eu era o irmão da Maria, e isso com certeza podia nos render situações bem estranhas. Ou não.
_Ei, porque tua camisa tava suja de sangue? No que tu se meteu, seu safado?
_Maria, tu não me chama de bandido?
_Sim, porque?
_Finalmente virei um.
Ela riu desse comentário besta. Mas realmente eu achava muito estranho ter me tornado um assassino, e não parecia que eu me encaixava nessa vida. Essa bosta de vida tá de pernas pro ar! Eu virei amante da minha ex-namorada, sou um assassino e ganho muito bem. Parece realmente que esse cara não sou eu. E me olhar no espelho não ajuda muito a me convencer do contrário.
A barba porca e mal feita, é a mesmo de sempre, inclusive, ainda maior. Mas o cabelo está mais curto, já que são instruções do chefão pra que eu possa conviver com a família dele, ou seja, com a perua loura da mulher, a filha patricinha, e o filho marombado que adora socar caras alheios na rua. Já fui chamado muitas vezes pra acudir o filho do chefão de brigas, e tirá-lo da prisão, mas a minha vontade é de bater nele.
Hoje meu turno foi só o da manhã, estive no Poleiro a manhã toda, mascando chiclete, já que o café maldito me dá vontade de fumar. Diva também estava lá, e resolveu me nomear conselheiro amoroso e sexual. O problema é que o assunto é o Canela, e eu não me interesso pelo pau torto dele, principalmente porque me lembro daquele abeludo torturando o cara com um sorriso no rosto.
Essa noite, Maria tem um compromisso numa festa de negócios, e isso me agonia de tal forma que parece que vou explodir. Não consigo entender porque Maria faz isso comigo, estou a dois meses tentando convencê-la a largar o noivo. Mas ela é irredutível, e sempre dá um jeito de mudar de assunto, na maioria das vezes, com uma cruzada de pernas. Sempre funciona. Fiquei em casa, lendo alguns livros que tenho desde adolescente, e de repente, me lembrei que a droga do meu aniversário está chegando. 23 de agosto, sou de virgem, o signo mais viadinho do zodíaco, embora não seja isso que Maria fale. Maria adora virginianos, comeu muitos fora de sua vida de puta, e ela, aquela maldita, é de escorpião, fria, calculista e irresistível.
Uma semana pro meu aniversário, e Maria sempre inventa algo muito estranho e que sempre me agrada.
Antes de me deitar, ela me ligou, e disse que tinha uma surpresa pra mim, e assim que pudesse, queria me ver num motel chamado Chalet, que fica no interior da cidade, lugar calmo, confortável, ótimo pra trepar. Gostei, já me sinto sedento pelo gosto da minha santa. Logo depois que desliguei o telefone, pensando nas mil e uma maneiras de comemorar meu aniversário com Maria, o Canela me liga, exatamente as 2:00 da manhã.
_Carlinhos? - o cara parecia maluco no telefone.
_Fala, Canela, que é?
_Cara, a Diva se emputeceu comigo, será que tu não pode falar com ela amanhã, quando for pro Poleiro? Tou com a Ofélia aqui, ela tá no banho, aproveitei pra ligar. Acho que a Diva notou algo, de repente, uns arranhões nas costas, e tal.
Então eu tava certo. Ofélia gostava de arranhar.
_Beleza, Canela, vou ver que posso fazer.
_Brigadão, Carlinhos.
Fui dormir imaginando o que aconteceria se Diva ou ofélia descobrissem a trama do Canela. E me diverti muito pensando nas consequências.



O bandido e a santa - capítulo 6

  • Oct. 1st, 2007 at 6:46 PM

Capítulo 6 - Gota d'água

_Puta merda, Carlinhos! Tu meteu uma bala bem no meio dos cornos do cara!
Canela filho de uma puta, fica me lembrando coisas desagradáveis. Ele gargalhava, parecia adolescente em parque de diversão, a camisa branca em baixo do terno, toda manchada de sangue.
_Cala a boca, Canela. - continuei dirigindo. Quanto mais longe do cadáver, melhor.
_Qualé, Carlinhos! Foi ótimo, aquele monte de merda tava mesmo merecendo um balaço!
_Canela, cala essa boca. Isso não tava nos planos, foda-se se ele merecia ou não.
Nesse momento, provavelmente a polícia já havia encontrado o cadáver. Iam ter de reconhecer pela arcada dentária. Descobri, nesses meus 8 meses de trabalho com o Canela, que ele não era tão lesado quanto eu achava, o cara até tinha um senso um tanto cruel, adorava sangue, morte e se divertia torturando os caras que o chefão mandava. Nada de cabeludo trevoso do mal, ou coisas assim, parecia mesmo um molecão barbado, assim, a primeira vista. Como é que eu ia imaginar que um chapado desses era tamanho terrorista?
Dizem que com Diva e Ofélia ele é um carneirinho. deve ser mesmo, ao menos com Diva. Ela não tem cara de quem apanha na cama. E Ofélia deve fazer um bom trabalho arrancando a pele das costas do meu amigo cabeludo.
O molecão se calou, mas o sorriso de quem se divertiu muito, continuava no rosto. Acendeu um cigarro.
_Apaga essa porra, Canela.
Ele me encarou, deu uma gargalhada, e apagou o cigarro no cinzeiro do carro.
_Que foi, Carlinhos? Parou de novo?
_Sim.
_Quer um chiclete?
_Vai se foder.
Riu de novo. E não,amigas, ainda não vou descrever o lindo rostinho do Canela, já dei características suficientes pra uma imaginação bem divertida.
_Calma aí, parceiro. E então, como tá tua moça?
O Canela sabia da Maria, obviamente não sabia que era a noiva do granfino, mas o suficiente pra saber que ela é quente.
_Ótima. - de certa forma, não menti. Maria estava ótima, volta e meia, me encontrava num motel diferente, às vezes até saíamos da cidade, e íamos nos comer no campo, na grama, à beira de patos e galinhas, super romântico.
Eu virei bandido, amante e tenho Pós Graduação em assassinato. Título que não me orgulho.
Deixei o Canela na casa de Diva, e fui direto pro apartamento de Maria, correndo o risco de pegar o noivo dela lá, e virar churrasco, ou quem sabe, ficar como o cara que eu matei hoje
Toquei a campainha, e fiquei esperando, silencioso, ouvir os passos fimer de Maria.
Ela abriu a porta.
_Até que enfim! Meu encanamento tá uma bosta!
_Hã?
Me puxou pra dentro, trancou a porta, e assim que eu me virei pra olhar Maria, um pouco assustado, ela grudou-se em mim como perereca se gruda na gente. Me beijou, lambeu, apertou, beliscou e me fez sentir Maria e Luiza ao mesmo tempo. Quando parecia satisfeita, meio ofegante, me encarou com aqueles olhos profundos.
_Que história é essa de encanador, Maria?
_Tenho que disfarçar, bandido. O pessoal do prédio é fofoqueiro.
_Eu tou cansado dessa merda de amante, Ma...
Fui interrompido bruscamente, por um daqueles beijos de desentupir pia.
_Agora vai. - ela sussurrou no meu ouvido, a boca fina pedindo mais um beijo.
_Pra onde, minha santa? - eu já estava mais que perdido, mais chapado que o Canela, só que a minha droga, o meu vício, era ela.
_Embora.
_Como é? - eu ri, desse jeito parecia que ela queria se vingar a qualquer preço, como diria Elis Regina nas palavras de Chico.
_Vai embora, bandido. meu noivo vai chegar a qualquer momento, e se me pegar assim, peladona, no tapete, com um cara peludo também pelado, aposto que eu não vou mais ser noiva.
_Que ótimo. E mesmo assim, Maria, teus seios inda estão nas minhas mãos,
me explica: com que cara eu vou sair?
Ela tirou os seios gigantes das minhas mãos e vestiu o sutiã vermelho de renda. Se levantou rápido, rindo da minha piadinha.
_Pára com isso, Carlos, citar Chico Buarque não vai te fazer ficar aqui.
Abracei Maria, e senti o cheiro da princesa que fiz coroar.
Fui empurrado porta a fora, com o terno na mão. Ela piscou pra mim, e a boca fina sorriu.
_Tchau, meu bicho preferido.
Bateu a porta na minha cara, de um jeitinho tão doce.
Fui descendo pelas escadas até o terraço, pra não ter perigo algum de encontrar o noivo de Maria, e quando cheguei embaixo, vi uma Mercedez preta, que se não fosse de um granfino, eu não saberia porque havia um segurança mal encarado dentro. Então, eu vi a merda que eu fiz: Esqueci a camisa no apartamento. Suja de sangue.
Gota d'água.